O que é ser um Conservador?

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Estamos testemunhando, no mundo ocidental, um despertar tardio em relação aos problemas gerados pelo pensamento reformista. Que estes problemas surgiriam era obvio. Os reformistas, conhecidos no Brasil como “A Esquerda” e nos USA como “Liberals”, com diversas designações na Europa, baseiam seu pensamento em noções extremamente ralas, quando não totalmente errôneas, de Filosofia e Ciência. Em ética, são incapazes de ir além do Consequencialismo Hedonista misturado com um, logicamente incompatível, Relativismo Moral. Em Economia, se apegam a noções descartadas do século XIX como a “Teoria Trabalho do Valor” temperada com a interpretação mais impiedosa do, em si questionável, pensamento keynesiano. Em sociologia, eles ainda se apegam a pseudociência de Marx, com suas infraestruturas e superestruturas e lutas de classes como fundamento. No entendimento da psicologia humana, não passam da igualmente pseudociência de Freud, que já foi mais que desacreditada pela verdadeira psicologia científica. Junte isso com um total desprezo em relação a fatos e a um mínimo de coerência e a tendência a resumir tudo a palavras de ordem e nada de bom pode advir daí.
 
Há muitas posições que acabam se contrapondo ao pensamento reformista como se manifesta hoje. Um exemplo é o Liberalismo Econômico. Para conseguirem impor suas reformas, os reformistas precisam de um Estado grande e interventor e assim acabam por entrar em choque com os defensores de uma economia mais livre. Por motivos similares, o reformista, entra em choque com o Libertário. Já existiram reformistas individualistas, que lutavam pelo anarquismo. No entanto, hoje, o Reformismo é quase 100% coletivista, desprezando o indivíduo em favor dos grupos a que pertence. Para o reformista contemporâneo, o que importa é se o sujeito é negro, mulher, feio, pobre, transexual etc. Como indivíduo ele é irrelevante. O Libertário, radical defensor da liberdade individual, irá se opor ao uso do Estado para imposição de comportamentos.
 
No entanto, a posição que mais diretamente se contrapõe ao Reformismo é o Conservadorismo. No embate entre os dois não há possibilidade de conciliação, pois não se trata de que os métodos de um se opõem aos interesses do outro. Aqui temos inimigos irreconciliáveis. Aqui a luta é eterna, ou até o último homem.
 
Infelizmente, o pensamento conservador carece de defensores a altura do combate. Para entender o motivo, é necessário explicar o que é Conservadorismo, em sua forma mais pura. A base emocional deste pensamento, é importante que se reconheça, é a forte propensão humana de manter as coisas como elas são. A evolução se encarregou de eliminar aqueles que eram excessivamente propensos à novidade. Se algum Homo Erectus resolveu testar se deitar em uma fogueira o mantinha aquecido, ele, felizmente, não teve como passar seus genes adiante. É obvio que esta base emocional, ou mesmo a vantagem evolucionária de preservar estratégias testadas, não justificam racionalmente o Conservadorismo. De qualquer forma, o homem superior deve reconhecer os motivadores emocionais para suas escolhas e ações. Um grande problema dos reformadores é desconhecer ou negar os seus.
 
Segundo a definição do Professor Patrick N. Allitt, que é a que uso, o Conservadorismo em política é uma atitude que favorece mudanças cautelosas e prudenciais ao invés de se opor à mudança a todo custo. Em sua forma mais pura, o Conservadorismo é simplesmente cético sobre mudanças radicais. Civilizações, enquanto sobreviveram e prosperaram, adotaram uma ordem social que funcionava. Esta ordem, tipicamente, embora nem sempre, surgiu de forma emergente, pela interação de várias forças e não foi desenhada conscientemente. Uma vez que se estabeleça, ela prova, na prática, ser capaz de resistir aos desafios gerados pelas necessidades de seu povo. Nos momentos de tranquilidade social, o conservador vê a ordem existente e a julga boa. No entanto, ele pode, e deve, perceber os defeitos mais fortes e evidentes nesta ordem e julgá-los inaceitáveis. Estes defeitos são de dois tipos: tensões internas inerentes ao modelo e mudanças ambientais.
 
No caso das tensões internas, o conservador aprova o modelo ao mesmo tempo que reconhece suas imperfeições e incentiva ações para minorá-las sem alterar a ordem social. Assim, por exemplo, um conservador que viva dentro de uma sociedade feudal, pode defender a divisão hierárquica entre nobres e plebeus ao mesmo tempo que exorta os nobres a protegerem seus vassalos de inimigos e prover grãos em tempos de fome. Aqui há o reconhecimento de que nenhum modelo é perfeito e cabe aos homens atuarem continuamente na solução de problemas. Mesmo quando há a possibilidade de que alterações no sistema corrijam os problemas, o conservador suportará mudanças moderadas, aconselhando sempre mais a paciência do que o perfeccionismo.
 
O desprezo em relação ao perfeccionismo em política pode ser ilustrado pelas opiniões de Montesquieu em relação ao excesso de leis na tentativa de resolver todos os problemas. Em sua visão, Leis inúteis tem como principal efeito o enfraquecimento das necessárias. O Legislador deve se preocupar apenas com o que é importante. Raramente deve-se combater, por lei, uma coisa que seja ruim, mas tolerável, sob pretexto de alguma perfeição imaginária.
 
A ideia de mudanças moderadas, testadas com paciência, é apenas bom senso e tem sido comprovada como superior, em geral, a mudanças radicais em diversas áreas da atuação humana. As empresas que, no passado, realizaram Reengenharia, não obtiveram grandes frutos e, em muitos casos, acabaram fechando suas portas. Aquelas que, por outro lado, adotaram a abordagem de melhorias menores, seguindo o princípio de Pareto, em geral obtiveram benefícios significativos.
 
No caso de mudanças ambientais, o conservador apoiará alterações no sistema. Estas mudanças podem advir de condições históricas, como a movimentação de povos bárbaros ou a abertura de novas rotas de comércio e intercambio internacional. Também podem ser causadas por avanços científicos ou mesmo pelo surgimento de novas ideias e sistemas filosóficos. De qualquer forma, um sistema que era adequado à uma situação pode ser visto como em necessidade de mudanças significativas em outra. O conservador deverá decidir quais são as partes do sistema que devem ser preservadas e quais devem der reformadas. Aqui temos o conservador como o grande inovador. De fato, o pacato conservador poderá se dispor a pegar em armas. O período da história inglesa que vai da assinatura da Magna Carta, em 1215, após o conflito dos Barões Ingleses com João Sem Terra, até a Bill of Rigths de 1689, como parte da Revolução Gloriosa, mostra, em cinco séculos, tanto o resultado impressionante de mudanças pacientes, quanto o grau de inovação política e social que se pode obter devido a ação de pessoas que entram em combate para manter as coisas razoavelmente como são.
 
A mais importante revolução da história, a Revolução Americana, foi liderada por homens que queriam manter sua forma de vida inalterada perante inovações (reais ou percebidas) vindas da Coroa. Quando todas as tentativas de resolver o assunto por meio da diplomacia se esgotaram, o combate armado se instalou. As fantásticas inovações em forma de governo, surgidas nos USA foram todas tentativas de preservar a ordem vigente, após a ruptura radical com a Inglaterra. As colônias, embora submetidas a um distante poder central, eram bastante independentes. Após a Revolução, os estados mantiveram sua independência, sendo submetidos inicialmente apenas ao fraco Congresso Continental e, depois da Constituição de 1787, ao ligeiramente mais forte Governo Federal. As liberdades individuais que, de fato, já existiam antes de 1776 foram preservados por inovações como a Bill of Rights. Apesar de todas as reformas, a vida de um americano antes e depois da Revolução sofreu apenas mudanças periféricas. E isto era o objetivo.
 
Uma coisa interessante sobre as reformas conservadoras é que, em momentos de crise o Conservador irá buscar nas experiências do passado, de diversos povos, as ideias para corrigir sua sociedade. Os Founding Fathers e os Framers foram buscar na República Romana muitas das ideias que foram adaptadas para sua nova nação. Diferente dos reformistas, que são guiados por utopias e teorias não testadas (e muitas vezes não testáveis) os conservadores tem tendências empiristas. Talvez, em algum lugar na história, uma solução tenha sido testada com sucesso e por tempo suficiente, e pode ser adaptada com um mínimo de esforço e engenhosidade.
 
Não quero dar a entender que o pensamento conservador é perfeito, ou que não tenha estado do lado errado da história com certa frequência. Alguns casos são extremamente embaraçosos. Temendo as consequências que a aceitação da Teoria da Evolução poderia ter para a sociedade, os conservadores se opuseram a sua disseminação. A defesa que posso oferecer é que em quase nenhum caso em que isso aconteceu os conservadores foram realmente bem-sucedidos. Os únicos casos que me vem a mente são a destruição da frota dos Juncos chineses, em 1525, para isolar a China e o pogrom que virtualmente destruiu o cristianismo no Japão no século XVII em nome da preservação dos valores tradicionais japoneses. Estes são exemplos extremos. Os conservadores de Roma não conseguiram deter a disseminação do pensamento cristão. Na civilização ocidental moderna não encontro exemplos de sucesso destas ações de resistência a novas ideias e descobertas científicas por parte dos conservadores.
 
O que está por trás desta tendência de ficarmos embaraçados com posições conservadoras do passado também explica porque não temos muitos filósofos e outros pensadores que ajudem a guiar o pensamento conservador. E o que está por trás é a necessidade de contexto. Um conservador, ao escrever um texto, dificilmente não estará agudamente consciente das sandices reformistas que ameaçam a sociedade que deseja preservar. Este contexto histórico irá colorir fortemente seu pensamento, mesmo quando defende princípios atemporais. Burke, o grande pensador conservador do século XVIII oferece análises profundas. É admirável que ele tenha previsto que a Revolução Francesa inevitavelmente descambaria em banho de sangue e na tomada de poder por um ditador. No entanto, a sociedade de Burke é o Antigo Regime e, para o conservador moderno sua defesa desta sociedade é inaceitável. É fácil desculpar Burke. A República era uma experiência não testada e claramente arriscada. Diferente do caso americano, a sociedade inglesa não sofria uma grande ruptura e não estava em necessidade de grandes reformas. Assim, era natural que Burke defendesse o Antigo Regime, pelo menos na sua moderada versão britânica. Mas esta defesa não muda o fato que qualquer conservador moderno que cite Burke está exposto ao escarnio impiedoso por parte dos reformistas que irão mostrar e, claro, exagerar, a parte superada de suas ideias.
 
Outra dificuldade devido ao fato que todo conservador é conservador em um contexto, com uma ordem específica que deseja preservar, é que ideias radicais de ontem são o natural estabelecido de hoje. É irrelevante que tenham existido sociedades, na Europa, que não tinham valores judaico-cristãos. É irrelevante se o casamento ou a família nuclear nem sempre foram valorizados como centrais na história. Em um determinado ponto, a civilização ocidental se consolidou em torno destes valores. É tarefa do conservador preservar o núcleo desta civilização. Talvez a ironia maior do conservador moderno esteja na ordem econômica. Muitos estranham porque pensadores como Adam Smith são chamados de Liberais Clássicos. A razão é simples! Eles já foram considerados liberais e reformistas. Antes destes pensadores, a economia era controlada pelo Estado e o conceito de preço justo, definido tradicionalmente, dominava mesmo em períodos de escassez econômica. As Leis do Milho inglesas, aprovadas pelos conservadores em 1815 e modificadas em 1828, defendiam o interesse das classes proprietárias de terras em detrimento das classes urbanas e trabalhadoras. Mas foram os próprios conservadores, liderados inicialmente por Robert Peel, que impuseram as necessárias reformas, repelindo as Leis do Milho em 1846 e promovendo o Livre Comércio. As ideias liberais de outrora, percebidas inicialmente como arriscadas e radicais, ao serem postas a prova, geraram prosperidade e passaram a ser defendidas pelos Conservadores.
 
É uma grande ironia que os Conservadores evoluam, adotando ideias que passaram no teste de sua implementação prática, enquanto os Reformistas se aferram a ideias superadas e utopias. O Conservadorismo é uma posição política de excelência, tendo contribuído de forma magistral em seus acertos e sido pouco consequente em seus erros. Temos que esclarecê-lo, divulgá-lo e defendê-lo. Nestes tempos, me parece importante que Libertários e Liberais Econômicos se posicionem claramente em relação ao duelo Conservadorismo-Reformismo. Também me parece igualmente, ou mais, importante, que aqueles que combatem o Reformismo devido a tendências conservadores se tornem autoconscientes e moderem tendências de momento com uma visão de longo prazo do que é ser, verdadeiramente, um conservador.