Massacre de Orlando: gays, terrorismo, porte de arma, corrida presidencial, fundamentalismo islâmico...

Massacre de Orlando: gays, terrorismo, porte de arma, corrida presidencial, fundamentalismo islâmico dentre outros…

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Vai ser difícil alguém ler uma matéria intitulada por exemplo: “49 seres humanos foram assassinados em Orlando, EUA”. Não, você não verá tal título. Primeiro porque “não vende” jornal e revista ou “não dá curtidas” nos posts de redes sociais, em suma, porque não chama a atenção do leitor. Em segundo porque todo o restante, contido no título deste artigo, é, infelizmente, indissociável do trágico episódio ocorrido na cidade de Orlando, Flórida, EUA, na boate Pulse no dia 12/06/2016.

Vamos resumidamente aos fatos para depois nos atermos melhor a toda a conjuntura que o envolve. Um atirador americano, eleitor dos Democratas, filho de afegãos, muçulmano, de nome Omar Mateen adentrou em uma boate de público majoritariamente homossexual armado com um fuzil AR-15 e uma pistola 9 mm e não só abriu fogo contra as pessoas no interior do recinto como perseguiu muitas até dentro dos banheiros conseguindo chacinar 49 delas e deixando outras 53 feridas e após manter outras dezenas reféns trocou tiros com a polícia e acabou morto.

O público, embora pudessem se encontrar heterossexuais dentre os frequentadores, mas era em sua maioria de homossexuais e neste caso em específico a orientação sexual dos frequentadores interessa sim para entendermos o que aconteceu; era uma noite de ritmos latinos, mas não restrita a hispânicos, então havia frequentadores, digamos, de todas as etnias, na boate na madrugada de sábado para domingo. Segundo o pai do atirador, Seddique Mir Mateen, a motivação para o ataque teria sido que o filho havia visto, em uma viagem para Miami dois meses atrás, dois homens beijando-se na boca despudoradamente em público enquanto ele passeava com o seu pai e o filho de 3 anos, e ele, Omar Mateen, teria ficado “perturbado com aquilo”, segundo palavras do pai do atirador. O senhor Seddique disse não desconfiar de nada e que se sente envergonhado pelo que o filho fez e ressalta que não sabia do envolvimento do filho com nenhum grupo terrorista. Este último ponto faz-se importante pois, logo após o atentado, o grupo Estado Islâmico reivindicou para si a autoria do atentado, dizendo que Omar era um dos muitos lobos-solitários que o grupo possui pelo mundo. O FBI foi a público dizer que o atirador, que não tinha antecedentes criminais, já tinha sido alvo de duas investigações pelo bureau, quando tivera um breve contato com um americano que se tornou jihadista na Síria, mas que isso era insuficiente para determinar que houvesse qualquer extremismo na sua figura.

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Omar Mateen Crédito da foto: bbc.com

Pelo que se sabe até agora tudo leva a crer que o atirador Omar Mateen, apesar de ter ligado para o 911 e ter declarado fidelidade ao Estado Islâmico, agiu mais por um sentimento de repulsa e ódio aos homossexuais do que por um anseio de “matar infiéis” numa espécie de jihad contra não-muçulmanos. O ataque pode ser classificado como terrorismo (embora massacre seja mais adequado) sim, mas não no sentido, digamos, “clássico” em que abordamos a palavra, mas sim num crime de ódio que coloca num mesmo caldeirão a rejeição natural que o Islã tem a homossexuais com preconceitos próprios do atirador o qual só uma análise mais profunda do passado do mesmo poderá nos responder da onde e quando este ódio a gays se desenvolveu.

Tendo dito isto cabe a discussão dos pormenores que rondam o drama principal, se fosse um filme de terror, eu diria que iríamos discutir agora as sub-tramas. Além de homofóbico confesso o atirador Omar Mateen também espancava sua ex-mulher, Sitora Yusufiy, uma imigrante do Usbequistão, com quem esteve casado por poucos meses; a mesma revelou que ele a batia por motivos irrisórios e começou a restringir-lhe a liberdade de ir e vir, até que em 2011 Sitora fora resgatada pelos seus pais e divorciou-se de Omar. Apesar de sua ex-mulher ter apanhado diversas vezes a mesma nunca prestou queixa à polícia contra o ex-marido, mas reitera que este tinha um discurso homofóbico, mas que nunca o vira com contatos com o extremismo islâmico. Este comportamento intra-domiciliar de Omar nos faz compreender melhor a psiquê doentia do atirador.

A boate era o que nos Estados Unidos chama-se de uma gun-free zone, ou seja, de um espaço livre de porte de armas e mais uma vez vem a questão, não do desarmamento, porque lá a posse de armas é um direito constitucional, mas da restrição ao porte de armas, como forma de coibir tais atentados. A charge abaixo ilustra bem o pensamento deste autor a este respeito:

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Traduzindo: “Droga. E agora o que faremos?”

E como se não bastasse soma-se a esta discussão sobre restrição ao porte de armas a corrida eleitoral americana em que a democrata Hillary Clinton defende a restrição como medida de controle aos constantes massacres e atentados ocorridos e o seu adversário o republicano Donald Trump defende a expulsão de todos os imigrantes do país, mas garante o porte de arma aos cidadãos americanos. Bem temos dois extremismos ineficientes não só para tentar evitar novos massacres semelhantes a este da boate Pulse como outros como o da Maratona de Boston em 2013; como a charge explicita claramente retirar totalmente as armas de um recinto não é uma boa idéia, e quando falamos em “livre de armas”, estamos falando em 100%, ou seja, nem os seguranças do local possuíam armas de fogo! E quanto aos cidadãos a medida se mostraria ineficiente, porque criminosos, mesmo os novatos, conseguem e continuarão conseguindo comprar armas e não serão leis que limitarão apenas os cidadãos comuns de terem acesso a este eficaz meio de auto-defesa que inibirão os bandidos. Já a extravagante e absurda idéia de Trump de deportar todos os imigrantes não tem base legal alguma e seria impraticável, fora o fato que os Estados Unidos, foi e continua sendo um país erguido, e mantido no topo, por imigrantes nos mais diversos setores da economia, desde a mão-de-obra braçal até os mais altos cargos em setores da tecnologia e afins; mas ao menos Trump não quer mexer com o direito inalienável de posse de armas pelos americanos.

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À esquerda o candidato republicando Donald Trump e à direita a candidata democrata Hillary Clinton. Fonte: brazilianvoice.com

E o fundamentalismo islâmico onde se encaixa nisso tudo uma vez que a motivação foi claramente de ódio aos gays!? Cabe no seguinte passo em que homossexuais não só são desprezados pelas correntes mais fundamentalistas do Islã como muitos são mortos pela sua simples opção sexual. Os radicais do Estado Islâmico já até mataram homossexuais nos territórios ocupados por eles arremessando-os de cima de prédios! O pai de Omar, Seddique, afirmou, aquilo que todo praticante do islamismo crê, que: cabe a Deus punir os homossexuais”, e que lamenta o ato do filho principalmente por este tê-lo cometido no mês sagrado do Ramadã. Ora pode ser que a influência do Estado Islâmico, como grupo terrorista, seja mínima na ação do atirador de Orlando, mas que a homofobia latente impregnada em sua religião não pode ser desprezada a isso não pode.

Com este que já é considerado o maior massacre por armas de fogo vindos de um único atirador da história do Estados Unidos algumas dúvidas ainda pairam no ar, mas muito mais questionamentos do que se deve vir a fazer de concreto para tentar evitar que tragédias assim aconteçam novamente ficam sem respostas. O que se sabe é que provavelmente o FBI e outras agências de combate ao terrorismo irão endurecer os seus métodos e quem sabe mais direitos serão tolhidos da população em geral. Este mais do que um ataque a homossexuais americanos foi um ataque as liberdades da civilização ocidental. E o medo não pode sobrepujar a liberdade.

We stand with Orlando.