Em defesa dos médicos brasileiros.

Relato de um médico (eu) que já rodou pelos rincões deste país

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Nunca havia escrito um texto em 1ª pessoa antes, mas o contexto me inspirou. Vamos lá!

Já rodei em tanto rincão desse Maranhão… já levei calotes, não foram tantos porque, vira e mexe, quando eu sentia o cheirinho de um calote se aproximando eu batia logo lá na Secretaria de Saúde ou mesmo na Prefeitura pra cobrar o que me era devido; já cheguei ao cúmulo de ter que acampar dentro do carro no portão da casa de um Secretário de Saúde fujão para receber 3 meses de salários atrasados. Mas nem só de calotes vive o médico da Atenção Básica, o mais comum é que até te paguem direitinho, mas aí quando você começa a se acostumar com o lugar, com a população vem a notícia “do nada” e diz “próximo mês não precisa mais vir doutor!”; geralmente por telefone porque esse povo não tem coragem de olhar nos seus olhos. “Ain, mas e o ‘aviso prévio’?!” Não estamos cobertos pela CLT meu caro! Não existe garantias de nada! E o pior você acha que esse “gestor” que nos demitiu vai dizer pra população desamparada “Olha tivemos que cortar custos e demitimos o médico”, por exemplo, você acha?! CLARO QUE NÃO!!! Ele vai chegar pra população e jogar a culpa nas nossas costas e dizer “Vocês sabem que médico não gosta de trabalhar em interior!”. E para aqueles que acham que eu estou com suposições não, não o são, sempre tive uma boa relação com os demais membros do PSF (Programa de Saúde da Família), agentes de saúde, técnicos de enfermagem, motoristas e enfermeiros; e quando das minhas demissões sempre me ligavam e diziam que era uma pena e que a população sentia a minha falta. Situações tristes.

Mudando um pouco de assunto já andei, no início da carreira, de barco, “vuadeira” como se chama aqui no MA a canoa que tem um motorzinho ligado a ela; já andei de trator, “jirico” para chegar em comunidades isoladas; já peguei muita estradazinha de terra com pontes de madeira caindo aos pedaços; e já fiquei muito “no prego” no meio do nada, em povoados que não sabem nem o que é celular, imagine área pra eles. Minha esposa, no início do namoro, nunca se esquece de que, me aguardando no hotel, eu sai para um povoado distante de manhãzinha cedo e ao voltar com o sol se pondo, estava todo empoeirado, suado, mas com o semblante satisfeito de quem fez alguma diferença naquele dia.

Sempre adorei atender as pessoas mais humildes, pois os agradecimentos mais sinceros vem delas; nos grandes centros a população desconta suas frustrações, com a própria vida ou com as agruras do sistema, em cima de nós médicos que temos “obrigação” de atende-las e sempre sorrindo, porque senão somos pior que o cocô do cavalo do bandido. Só que eu tenho família, eu tenho contas a pagar, eu não vivo de “amor” gerado pelos outros e calotes e insegurança cansam e desgastam qualquer um. E pros novos “adoradores do Mais Médicos” que adoram criticar a atuação dos médicos brasileiros pensem bem antes de sair digitando abobrinhas, para não dizer nada chulo, sobre o que é ser médico em lugares que vocês leigos, só ouviram no máximo, falar de nome; e demais, quando se fala em cidades interioranas, você tem uma “sede” e você tem os “povoados”, que estes sim são os rincões, a zona rural propriamente dita, de população carente que tem seu destino submetido em sua maioria a prefeitos e secretários de saúde que pouco se importam se haverá médicos com regularidade ou não para atende-los; médico está exigindo condições de mais? Demite. Está cobrando receber em dia? Demite? O combustível do carro da equipe tá caro? Demite. O médico “olhou torto” pro Secretário de Saúde? Demite. O filho do prefeito acaba de se formar em medicina? Demite o antigo médico. E por aí vai…

Poderia me perder a falar disso, mas a prova de que a atual fase do Programa Mais Médicos está sendo um sucesso de inscrição de brasileiros é pelo simples fato que o pagamento sendo feito pelo Governo Federal, e não municipal, tira a insegurança em que boa parte dos médicos, incluindo eu, passamos todos esses anos. Então o Mais Médicos é a solução final? Não. Este continua sendo um Programa Tapa-Buracos e o porquê disso eu expliquei em um antigo artigo que pode ser visto aqui.

Enfim procurem saber mais sobre como é a vida do profissional médico nos rincões do Brasil não só “da boca dos outros” e sim de quem já viveu na pele o que é ir aonde o poder público não chega e ainda te acusa de ser “playboyzinho” por não querer ir também.