A Imprensa, atualmente, é importante para a divulgação da verdade?

Ou, como foi que me envolvi numa treta com o editor Carlos Andreazza, que me chamou de babaca...

88

Quem me conhece pessoalmente, ou me acompanha na minha fanpage, sabe que estou longe de ser um bolsomion. Nesses últimos 2 anos, fui e voltei algumas vezes no meu apoio a Bolsonaro. Nunca caí em nenhuma dessas conversas de homofobia, preconceito, desrespeito às mulheres, que a mídia espalha, mas minhas dúvidas eram mais práticas. Não sabia se ele não faria um governo estatista; se não se deixaria influenciar por um setor radical da Direita ou se não daria espaço para esses direitistas malucos que acham que a Inquisição queimou foi pouco. Com o tempo, eu acabei desvinculando a pessoa Bolsonaro daqueles que o apoiavam.

Essa desvinculação parece que faltou ao editor Carlos Andreazza. Ele, indubitavelmente, foi vítima de tentativa de assassinato de reputação feito por aquele setor radical, apelidado de Direita True pelo Luciano Ayan. O que ocorreu foi que Andreazza escreveu um artigo bastante crítico sobre Bolsonaro em O Globo (deixo aqui o link de uma reprodução, visto que o jornal tem essa prática horrível de não liberar todo o texto sem que você seja assinante) e passou a ser perseguido pelos bolsominions, que divulgaram um empréstimo legítimo do BNDES à Editora Record (da qual ele não passa de um empregado) como sendo algo escandaloso e como sendo a “prova” de que ele criticava Bolsonaro por ter interesses financeiros na manutenção do BNDES (que, aliás, Bolsonaro nunca disse que iria extinguir, mas abrir a caixa-preta).

Eu até entendo que isso pode ter deixado a capacidade de julgamento de Andreazza meio comprometida, uma vez que ele foi vítima de ataques injustos. Na época, lembro que eu ia nas postagens dos meus amigos bolsominions explicar que empréstimo do BNDES era a coisa mais correta possível, desde que não fosse feito como forma de corrupção, desvio de verba ou para ajudar ditaduras estrangeiras. Geralmente não adiantava, como costumava ocorrer com os bolsominions…

Porém, no 4º Congresso do MBL, ocorrido esse final de semana, Andreazza passou de todos os limites. No painel sobre Imprensa, ao qual infelizmente o Rodrigo Constantino não pode comparecer, Andreazza se comportou mais como um membro do sindicato dos jornalistas do que como um pensador.

Ele começou criticando a demonização da Imprensa e com uma defesa da mesma como meio de manutenção da Democracia, o que eu até entendo, visto que viver sem uma imprensa livre seja muito pior do que com ela, por pior que seja, embora a vida tenha me ensinado que a frase do jornalista progressista Erwin Knoll, “Everything you read in the newspaper is absolutely true except for the rare story of which you happen to have first-hand knowledge” seja mais próxima da verdade. Em TODAS as ocasiões onde eu tive informações privilegiadas sobre algum evento noticiado, o que saiu na imprensa era, invariavelmente, mentira ou exagero.

Mas o ressentimento de Andreazza com os sites bolsominions acabou ultrapassando seu senso crítico ao começar a atacar, de forma mais generalizada, o surgimento da mídia alternativa, da qual seu companheiro de painel, Alexandre Borges é defensor e um dos expoentes, com seu web-programa Imprensa Livre.

Após deixar claro que a vitória de Bolsonaro tinha sido decorrente da capacidade deste utilizar a demonização da imprensa a seu favor, ignorando toda a insatisfação da população em relação a vários outros setores da vida brasileira, ele criticou como algo extremamente perigoso um Presidente dizer que não irá mais fazer publicidade na Folha de S. Paulo devido à insatisfação com suas matérias. Isso, para depois desfazer dessa mesma verba, afirmando que o que o jornal arrecada com publicidade nem é tão importante assim. Deve ser verdade esse bilhete, pois quase não vemos propagandas nos jornais, não é mesmo?

Aí Andreazza comparou a demonização da Imprensa por parte de setores da Direita à demonização da Imprensa por parte dos petistas, comparando o surgimento dos “blogs sujos” ao surgimento dos sites e páginas de notícias criados pela Direita. “Esqueceu” providencialmente que o PT defendia o controle social da mídia (outro nome para censura) e que nós não defendemos censura, mas o fim da hegemonia da Esquerda como fornecedora de informações à população. Também “esqueceu” que os blogs sujos eram mantidos com dinheiro público que o PT pagava por meio de publicidade estatal, enquanto os sites de direita são mantidos com o dinheiro de seus criadores e, eventualmente, doações.

A partir daí a fala dele já não estava agradando, nem a mim, nem às pessoas que estavam perto. Mas a desconexão da realidade foi ainda maior quando ele afirmou que uma prova de que a Imprensa não era tendenciosa era o fato dele ser articulista de O Globo e o Kim Kataguiri ser articulista da Folha. Nesse exato momento, eu decidi que iria fazer perguntas assim que fossem abertas ao público, porque me parece tão óbvio que não consigo crer que um editor de boa fé não veja a imensa diferença entre um jornal ter articulistas que escrevam uma coluna, podendo ser tanto Boulos quanto Kim, e todo o CORPO do jornal, ou seja, as notícias ser extremamente tendencioso como vemos na Folha e no Globo.

O problema não é ter uma coluna do Lula ou do Cabo Dacciolo. O problema é você ler um manchete dizendo que policiais mataram dois adolescentes e, só depois, descobrir que os adolescentes estavam assaltando. É você chamar de agressão quando alguém chama um artista de safado e chamar de incidente quando um candidato a Presidente sofre um atentado a faca. É nas NOTÍCIAS que temos esse viés absurdo. E foi por só achar sites de notícias com esse viés que eu decidi, há alguns anos, fundar o Olhar Atual (embora a parte de notícias esteja ainda engatinhando).

A essa altura, a fala de Andreazza já estava se tornando até uma ofensa pois, todos sabemos que o MBL foi (e ainda é) vítima de uma perseguição canalha por parte da Imprensa, com chamadas mentirosas, acusações de ser um movimento de extrema-direita ou fascista, apoiador da censura e assassinatos de reputação de seus membros.

Aliás, pergunto a Andreazza: o que é pior, um obscuro site direitista, com umas centenas de leitores, tentar assassinar a reputação de um editor como ele ou o maior jornal do país, com centenas de milhares de leitores, tentar assassinar a reputação do Renan Santos, um dos líderes do MBL, ou mesmo tentar acusar o candidato a Presidência de algo que não se provou, às vésperas das eleições? Quem é mais responsável? Um médico que prescreve algo errado a um paciente ou a vizinha que indica uma medicação que acaba fazendo mal? O profissional deveria ter muito mais responsabilidade do que o amador.

Essa perseguição da Imprensa não se faz em artigos de opinião, mas em pseudo-notícias que visam espalhar mentiras, as verdadeira fake news de que a Imprensa nos acusa.

E, para a cereja no bolo, Andreazza cita como “prova” de que a Folha não é tendenciosa, a matéria recente revelando que telegramas provavam que o Programa Mais Médicos foi criado por Cuba para envio de dinheiro para a ditadura comunista.

Foi aí que o Danilo Gentili resolveu intervir. Ele, mais do que ninguém sabe como a Imprensa não é essa gracinha que Andreazza estava pintando e perguntou por que a Folha só foi revelar aqueles dados AGORA que os cubanos saíram do Brasil. O público vibrou de forma entusiástica. Eu, como médico brasileiro, que foi ultrajado pela Imprensa por anos com esse discurso de “médico coxinha que não quer trabalhar nos rincões”, me senti vingado com a pergunta do Danilo e me levantei para aplaudir de pé e gritei, em meio ao aplauso geral ao Danilo “Por que só agora?”. Como eu estava na sexta fileira, Andreazza já tinha me visto fazendo “não” com o braço quando ele falou algo que não concordei. Até comentou “tem gente dizendo que não…” e continuou.

A reação de Andreazza mostrou que nem só os bolsominions são resistentes ao contraditório. Ele respondeu que aquilo lá não era um debate de um contra o outro e que era para deixar de ser babaca, olhando para o público, provavelmente eu. Danilo contemporizou dizendo que sua pergunta era “zero confrontativa” e pediu para o público não fazer aquilo. Quem conhece Gentili, sabe que é esse o modo dele agir. Ele coloca a pessoa no fogo e afirma que foi de boa. Andreazza respondeu numa irritação indisfarçável. Após uma defesa tímida de Andreazza que insistiu que a matéria da Folha seria de grande importância, Danilo complementou que durante toda a existência dos cubanos no Mais Médicos, quanto de propaganda a Folha de S. Paulo não fez? Quanto de patrulhamento a Folha não fez? Quanto de assassinato de reputação ela não fez? E se essa matéria não teria saído porque pegaria mal agora, com a saída dos cubanos, continuar com o mesmo discurso. Mais adiante, provavelmente ao ver que Andreazza emburrara, Danilo lembraria que aquilo era um evento do MBL e não um debate da GloboNews (onde todos pensam igual) e que isso era comum lá, voltando a ser aplaudido.

Aí Andreazza passou para uma atitude passiva-agressiva. Sentado, pegou seu celular e ficou navegando nele, enquanto Danilo falava. Abriram para perguntas do público e o primeiro a falar foi o Renan Santos, que falou exatamente o que eu iria dizer, então decidi não ir mais lá perguntar. Renan contou como a Folha publicou uma matéria o acusando de processos trabalhistas datados de quando ele tinha 14 anos de idade, comentou como essa matéria prejudicou sua família, e deixou claro que o problema não era a abertura de espaço para o contraditório em artigos opinativos, mas as mentiras contidas nas notícias divulgadas.

Como uma pá de cal, Renan é sucedido por Luciano Ayan, que teve sua vida profissional extremamente atingida pela divulgação de matérias que o acusavam de ser propagador de fake news quando ele somente comentou um texto da Mônica Bergamo. Novamente, não se trata de artigo opinativo, mas de notícia que afirmava que seu site e página eram propagadores de fake news, o que levou o Facebook a cancelar sua página e perfil.

Mas vejam, não sou só eu que penso assim. Durante a fala de Andreazza, todos que estavam em torno de mim (a maioria desconhecidos) não estavam concordando com o que ele dizia. Depois do painel, fui conversar com alguns formadores de opinião mais experientes que eu e todos também discordaram daquele posicionamento de Andreazza. Diga-se de passagem, posicionamento que ele tem TODO O DIREITO de defender. Desde que não acuse de babaquice quando alguém aplaude uma opinião contrária.

Por fim, deixo aqui o link para um texto curtinho da página O Antagonista que diz que a Imprensa tem que pedir desculpas pela lorota do mais médicos. Pelo visto, se depender do Carlos Andreazza, podemos esperar sentados…