Evasivas admiráveis

Como a Psicologia subverte a moralidade

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EVASIVAS ADMIRÁVEIS
Como a Psicologia subverte a moralidade
Theodore Dalrymple – 2015

Para quem não sabe, Theodore Dalrymple é um fake. Alguém que comete um crime gravíssimo. Pelo menos na opinião de certos neocons (que paradoxalmente são fãs dos textos de Dalrymple), que fizeram essas mesmas acusações a Carlos Augusto Afonso por utilizar o pseudônimo de “Luciano Ayan”. Sim, porque Theodore Dalrymple não existe. É um personagem inventado pelo médico psiquiatra Anthony Daniels para uma serie de TV, After Dark. Aliás, nem é o único pseudônimo utilizado por Daniels. Ele também usa Edward Theberton.

Como eu nunca tive problemas com a leitura de autores que utilizassem pseudônimos, essa informação não influenciou em nada minha avaliação desse livro. Porém, fui informado por amigos que escolhi mal o primeiro livro de Dalrymple que li. Parece que ele tem coisa muito melhor que esse pequeno texto, bastante irregular em termos de qualidade.

A proposta do livro realmente me atraiu pois, em 33 anos de prática como neurologista, poucas frases resumiram tão bem minhas impressões quando está de Dalrymple: “Se a vida hoje em dia é melhor para milhões de pessoas, a psicologia praticamente em nada contribuiu para essa melhora.”

Essa nossa opinião (minha e de Dalrymple) certamente atrairá a ira de muitos defensores da psicologia. Já me adianto e informo que não sou tão radical quanto Dalrymple. Vamos analisar os pontos que concordo e discordo.

O livro começa muito bem, criticando a origem da Psicologia, ou seja, Freud. Não deixa de ser curioso constatar que Freud é, hoje, considerado ultrapassado e refutado e, ao mesmo tempo, ainda vemos muitos artigos e reportagens se referindo a ele e suas teorias como válidos.

Dalrymple defende que precisamos nos autoconhecer, mas discorda que a Psicanálise e a Psicologia como um todo nos auxiliam nessa tarefa. Ele diz:

“Minha tese é que o progresso que ostentamos e pretendemos é na verdade, por mais incrível que seja do ponto de vista tecnológico, um retrocesso em termos de honestidade e sofisticação.”

“A psicologia não é uma chave do autoconhecimento, mas sim uma barreira cultural para acessar essa compreensão.”

Ele crítica ferozmente a insistência de vários setores do conhecimento humano, dentre eles principalmente a Psicologia, de querer resolver os problemas do ser humano.

“O homem não é um animal que resolve problemas, mas sim um animal que os cria.”

E, para provar que o surgimento dos diversos ramos da Psicologia, em nada contribuiu para a melhora da vida das pessoas, ele diz:

“Basta afirmar que, em virtude do esvaziamento de expectativas exageradas, 10% ou mais da população agora toma antidepressivos.”

“Serem ingeridos em grandes quantidades comprova uma insatisfação, um descontentamento com a vida em vez de maior compreensão de suas causas.”

Nisso, estou totalmente de acordo. Recém formado, eu ainda acreditava que pacientes com problemas psicológicos deveriam ser encaminhados para terapia. Foi quando constatei inúmeros casos onde, o paciente estava péssimo psicologicamente e, ao dizer que iria encaminhá-lo para psicoterapia, ele respondia que já fazia há 5, 10, até 15 anos. Obviamente que a falta de melhora de UM paciente com um tratamento não invalida esse tratamento. Porém essa cena se repetiu inúmeras vezes ao longo de anos, até que perdi minha crença na psicoterapia.

Dalrymple afirma que a capacidade da psicanálise de imobilizar o paciente por anos, fuçando sua infância sem nenhum resultado prático atrapalha o progresso daquele indivíduo e da sociedade como um todo.

“Se a psicanálise tivesse sido inventada pelos homens das cavernas, a humanidade ainda moraria nas cavernas.”

Ele usa uma frase de Shakespeare para fazer uma analogia. A frase é:

“É a admirável desculpa do homem devasso – responsabiliza uma estrela por sua devassidão!” Edmundo em Rei Lear, Shakespeare

Na modernidade, não responsabilizamos uma estrela ou constelação (embora alguns ainda o façam), mas nossos traumas do passado, nossa mãe que não nos amou o bastante, nossos neurotransmissores que não nos permitem ser felizes, nunca assumindo nossa responsabilidade por nossos atos.

Um problema no texto de Dalrymple, e que é recorrente nos autores conservadores, é a mistura de suas crenças religiosas (ou ausência delas, no caso de Dalrymple, que é ateu) com os pensamentos políticos ou filosóficos. Assim, o leitor se depara com uma frase horrenda onde Dalrymple compara a psicologia à frenologia e ao Espiritismo, considerando as três, crenças bizarras. Qual a necessidade disso?

Mas vamos continuar com as críticas à psicanálise.

“A resistência à psicanálise como doutrina e método surgiu por causa das suas inadequações intelectuais, que eram, ou deveriam ter sido, evidentes desde o início. Ela não propunha nenhum critério de verdade para distinguir uma interpretação verdadeira de uma falsa, nem mesmo uma plausível de uma implausível.”

“A psicologia repetidamente anuncia grandes avanços na compreensão humana, mas o anúncio se revela prematuro e outra escola imediatamente se apresenta com o que pode ser chamado de ruptura autopromocional.”

Após terminar (literalmente) com a Psicanálise, Dalrymple dirige suas críticas ao behaviorismo. Doutrina que crê que tudo que fazemos é fruto de reflexo condicionado.

“O behaviorismo era um sintoma da perpétua impaciência metafísica do homem.”

“Partindo do fato de que o condicionamento indubitavelmente existe, tira-se a conclusão um tanto abrangente de que apenas o condicionamento existe, e essa é a explicação para tudo que remete ao ser humano.”

Essa crítica, a meu ver, também é correta. Quem já assistiu ao filme “Meu tio da América” pode constatar como pensam os cientistas que creem que as atitudes do homem são todas condicionadas como as de um rato de laboratório.

Aí Dalrymple chega num tema que eu já pensava nos meus tempos de aluno de Medicina.

“Outra característica do pensamento psicológico é o quanto é superestimado em termos da pretensa luz que a patologia física e psicológica lança sobre o funcionamento normal e logo sobre a existência humana como um todo.”

Nunca entendi como se podia tirar conclusões sobre o funcionamento normal da mente humana se utilizando casos patológico. É como querer explicar o funcionamento digestivo a partir de um paciente com intolerância a glúten ou retocolite ulcerativa. Não faz sentido!!

Finalmente chegamos na minha primeira (e maior) discordância com Dalrymple. Uma decorrência do behaviorismo, mas que está longe de ser parte dele ou utilizar as mesmas técnicas, é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Em toda a minha prática clínica, nunca vi uma terapia psicológica tão eficaz para o tratamento de fobias, transtorno de pânico e outros quadros. Dalrymple tem um desprezo fenomenal pela TCC. Porém, após alguns parágrafos extremamente críticos e até injustos, ele acaba por escrever que “Para quem tem obsessões, compulsões ou depressão moderada, a TCC funciona, e até certo ponto é benéfica para humanidade.”

Novamente entramos em sintonia quando ele comenta, sem citar esses nomes, a possibilidade dos sintomas psicológicos serem fruto de histeria ou transtorno conversivo.

Uma das coisas que mais me incomoda há anos é a minha crença de que uma parte significativa dos pacientes, hoje em dia, não serem portadores das doenças que eles creem ser portadores e que muitos médicos diagnosticaram. Doenças físicas cujo diagnóstico não possui um “marcador” (um exame que dê o diagnóstico de certeza) vêm tendo uma incidência crescente. Quando isso chega aos diagnósticos psiquiátricos a coisa ainda piora.

Na década de 1980 poucos médicos conheciam a chamada “Síndrome do pânico”, muito menos os pacientes. Nessa época, os sintomas eram extremamente monótonos (idênticos em todos os pacientes) e com desencadeantes bem claros. Uma das características dessa síndrome era que o paciente, entre as crises, não mostrava nenhum sinal de ser ansioso, histriônico ou impressionável. Nessa época, recém saído da residência e ainda com as outras especialidades frescas na memória, cheguei a tratar inúmeros pacientes com pânico. Todos tinham sintomas semelhantes e não tinham nenhuma psicodinâmica que explicasse os sintomas. Lembro de um policial militar que, após eu explicar a ele qual era o seu diagnóstico, comentou “Nossa! Que coisa de fresco!” Ou seja, o paciente entre as crises não tinha nada de histeria (com a qual a Síndrome do pânico era inicialmente confundida). Uma dose baixa e antidepressivos tricíclicos por um período de 6 a 8 meses frequentemente levava à remissão dos sintomas.

Porém, após esse diagnóstico ganhar a mídia, surgiram inúmeros casos com sintomas esdrúxulos, sem os desencadeantes clássicos e em pacientes que eram visivelmente problemáticos psicologicamente falando. Já vi pacientes com esse diagnóstico (feito não por mim) com sintomas 24 horas por dia e não em crises e outros que tratam há 10 ou 20 anos, tomando medicação e ainda com sintomas. Como explicar essa mudança de comportamento exceto pela possibilidade desses novos pacientes não terem a mesma doença dos primeiros? Dalrymple nos responde:

“A suposta doença pode tornar-se mais frequente à medida que se difundem o conhecimento sobre ela e as possibilidades de cura. Como em qualquer ramo do conhecimento, existem modismos nos diagnósticos, mesmo nas doenças físicas.”

“Qualquer pessoa com acesso à internet, cuidado e determinação pode simular muitas das chamadas neuroses.”

Numa frase rápida, ele insinua que o ganho com afastamentos e aposentadorias pode estar por trás do aumento de certos diagnósticos.

“Há outras maneiras de promover a fragilidade psicológica, é claro; por exemplo, recompensando-a.”

“A causa real de numerosos casos de inabilidade física é o sistema legal, sem o qual muitos daqueles que sofrem do mal seriam mais robustos psicologicamente.”

Dalrymple critica, com razão, o excesso de diagnósticos psiquiátricos, a chamada “patologização do comportamento”.

“A expansão dos diagnósticos psiquiátricos leva simultânea e paradoxalmente a tratamentos prolongados demais ou insuficientes.”

Passando então à moda do momento, as terapias para reforço da autoestima e amor próprio, ele mostra como esse tipo de conceito é danoso.

“De acordo com os modos mais tradicionais de pensamento, aprender a se perdoar é aprender a agir sem escrúpulos, como forçar o próprio rumo sem se importar com as outras pessoas, como – de fato – se tornar um psicopata. Aliás, o multiculturalismo tem a mesma consequência lógica.”

“A autoestima e o amor próprio, na psicologia moderna, atuam como imperativos categóricos conforme a filosofia moral de Kant.”

“Não é difícil enxergar a conexão entre essas ideias e a moderna tendência pedagógica que elogiar as crianças pelo seus esforços, por mais incoerente que isso seja.”

“A concepção de amor próprio ou autoestima ou é ridícula ou é repugnante.”

“Ninguém pode dizer que qualquer conquista humana foi fruto da autoestima. Uma boa dose de dúvida sobre si mesmo é bem mais conducente (mas não suficiente) para tal conquista.”

“Faço aqui uma mera observação: pessoas muito ruins estão cheias de autoestima; criminosos famosos, por exemplo que se orgulham de seus feitos. Autoestima do mal é arrepiante.”

“Um homem pode se odiar por ser o que é, mas isso não o absolve da responsabilidade de ser o que é.”

O próximo tópico é a tendência crescente de se atribuir os crimes à “doenças da mente”, o que é uma forma de isentar o criminoso de sua culpa. Uma derivação dessa crença é a ideia de que o sistema penal deve recuperar (curar) o criminoso.

“A lei criminal deve supostamente proteger o público, e não curar o criminoso.”

Uma das máximas incontestáveis de Dalrymple é a de que “O que começa como moda entre as pessoas instruídas logo é filtrado para quem não tem instrução.” Qualquer pessoa que observe o mundo à sua volta já notou isso.

A crítica de Dalrymple às hipóteses neuroquímicas para o comportamento humano podem parecer muito exageradas, mas ele tem razão. Neurotransmissores são alvo de modismo da mesma forma que sapatos.

“Essa ideia reducionista de que tudo se resume a um neurotransmissor, de que o excesso ou escassez de um punhado de substâncias biológicas no cérebro supostamente é responsável por todos os nossos desastres, jamais deveria ter sido levada a sério.”

“Os rumores de grandes avanços na compreensão logo vazaram para a população geral, que desenvolveu grande apetite por drogas de autoajuda.”

“E foi assim com os antidepressivos novos, talvez de maneira não tão extrema. Os médicos eram sistematicamente enganados pelas empresas farmacêuticas para acreditarem que os ISRSs eram mais eficazes do que são por meio da supressão de dados desagradáveis.”

Aí temos mais uma impressão intuitiva minha sendo confirmada por Dalrymple. Eu sempre tive a impressão de que os Inibidores da Recaptação Seletiva da Serotonina (ISRS), dos quais a Fluoxetina foi a primeira, ou não funcionavam ou perdiam seu efeito com o tempo, uma vez que muitos pacientes que estão utilizando continuam com os mesmíssimos sintomas que os levaram a tomar a medicação. Dalrymple confirma minha impressão.

“Creio que não há necessidade de apontarmos novamente a conveniência de uma hipótese neuroquímica de infelicidade e conduta indesejável para aqueles que buscam ‘responsabilizar uma estrela por sua devassidão’. Em outras palavras, não sou eu, são meus meus transmissores.”

O próximo alvo das críticas é a hipótese genética para distúrbios de comportamento, embora ele admita que “Seria surpreendente se os genes não tivessem influência alguma sobre o caráter e, portanto, sobre o comportamento.” Porém, ele critica o excesso de importância que se dá a isso.

“Periodicamente, com a monotonia do tique-taque do relógio, as explanações genéticas do comportamento criminoso voltam à moda, talvez porque a criminalidade é tão irritantemente complexa e porque é melhor ter uma explicação, mesmo que falsa.”

“Os neurocientistas sonham com um mundo tão neurologicamente saudável que ninguém precisará ser bom.”

“Nos últimos anos, outra corrente de pensamento vem fluindo pelo grande rio das evasivas admiráveis, qual seja, o novo darwinismo, que alega ter sido bem-sucedida onde outras correntes fracassaram.”

“As tentativas dos evolucionistas (e neurocientistas) de fundamentar a moralidade na evolução remetem às tentativas de Marx de fundamentar a moralidade nos processos alegadamente inelutáveis da história.”

“Isso tudo é tão absurdo que nem precisa ou merece ser refutado. Mas podemos facilmente enxergar que esse tipo de baboseira, com sua cortina de fumaça de elaboração e sofisticação, serve para diminuir as dores da responsabilidade do homem sobre si mesmo de maneira individual e coletiva.”

Antes que fosse acusado de estar criticando tratamentos que tiveram resultados em alguns casos, Dalrymple esclarece: “Não estou afirmando, é claro, que as terapias psicológicas ou farmacêuticos nunca ajudaram ninguém, embora as teorias em que se fundamentam sejam provavelmente equívocos completos.”

“Infelizmente, a natureza megalomaníaca da maioria das profissões modernas que ‘cuida’ das pessoas (…) acaba subvertendo qualquer modéstia residual, realismo ou julgamento que poderiam ainda ter.”

“O efeito geral do pensamento psicológico na cultura e da sociedade, eu insisto, tem sido esmagadoramente negativo, já que dá a falsa impressão de um aumento enorme no autoconhecimento humano que nunca foi alcançado, (…) e torna raso o caráter humano porque desencoraja o exame de si mesmo e o genuíno autoconhecimento.”

Aí chegamos a outra discordância minha. Dalrymple nos descreve o clássico experimento de Stanley Milgram, que pediu a voluntários para darem choques com intensidade crescente num desconhecido caso este errasse uma tarefa. O experimento mostrou que a maioria das pessoas, investidas de um poder dado por uma autoridade, daria choques que, se fossem reais, poderiam ter matado a outra pessoa.

Eu ainda lembraria de outro experimento, feito em Stanford, onde universitários voluntários foram divididos em dois grupos: um agiria como guardas e o outro como prisioneiros. Aos guardas foi dada autoridade total, enquanto os prisioneiros não tinham qualquer direito. O experimento teve que ser interrompido antes de sua conclusão. Os prisioneiros sofriam – e aceitavam – tratamentos humilhantes e sádicos por parte dos guardas e, como resultado, começaram a apresentar severos distúrbios emocionais. A comida era frequentemente negada, sendo usada como meio de punição. Alguns prisioneiros foram obrigados a despir-se e chegou a haver atos de humilhação sexual.

Surpreendentemente, Dalrymple parece não compreender a verdadeira conclusão desses dois estudos ao afirmar “Não precisamos de experimentos que nos provem que autoridade excessiva é prejudicial, mas basta um minuto de reflexão para demonstrar a necessidade da autoridade.”

“As descobertas experimentais de Milgram não nos horrorizam, nem mesmo nos interessam, pois já estamos convencidos de que aplicar choques em estranhos até que morram é errado.”

Essa redução de um experimento tão importante a uma conclusão de que “excesso de poder é ruim” é absurda! A verdadeira conclusão – assustadora – é que qualquer pessoa normal (os estudantes de Stanford foram selecionados por serem os mais estáveis psicologicamente dentre os candidatos) pode vir a praticar atos realmente monstruosos se lhe for dado poder para isso é contar com o suporte e aprovação de seus pares.

Infelizmente, o livro termina justamente nesse assunto, onde creio que Dalrymple pisou feio na bola.