Carnaval acrescenta risco à epidemia de Zika

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Os riscos de termos mais duas epidemias, além da de Dengue, graças à vinda de torcedores estrangeiros durante as copas das confederações e do mundo, foram apontados por especialistas ainda no início de 2013. Na época, os setores responsáveis do Governo Federal descartaram qualquer medida restritiva ao fluxo de imigrantes provenientes de países africanos. A ideia de se fazer qualquer tipo de quarentena ou mesmo de checagem de sinais de doença pareceu, aos membros do Governo, arriscado pois poderia espantar turistas.

Como consequência, tivemos a entrada no país de outros dois vírus igualmente transmitidos pelo mosquito Aedes aegyptis: o vírus Zika e o Chikungunya. Os primeiros casos dessas duas infecções não despertaram tanto interesse da mídia ou mesmo dos órgãos responsáveis. Tudo parecia ser muito parecido com a já conhecida Dengue. Sintomas parecidos, tratamentos parecidos, descaso parecido.

Até que um aumento súbito dos casos de microcefalia associados a gestantes que tiveram sintomas sugestivos de Zika fez com que todos, mídia, Governo e população, passassem a se preocupar com o controle do mosquito.

Porém, não vi ainda na mídia nenhum comentário sobre um assunto extremamente importante, ainda mais com a aproximação do Carnaval: a transmissão sexual do Zika.

A doença provocada pelo vírus Zika é muito pouco conhecida ainda. Até essa epidemia brasileira, nem se sabia que a infecção intraútero poderia levar a microcefalia. Esse desconhecimento levou algumas pessoas a espalharem boatos onde se afirmava que os casos de microcefalia haviam sido causados por um lote de vacina contra rubéola. Essa teoria caiu por terra no momento em que novos casos de microcefalia começaram a ocorrer em outros pontos do país, onde gestantes haviam sido vacinadas com outros lotes.

Porém, existe um caso muito bem documentado de transmissão sexual da Zika. Em 2009, um biólogo norte-americano, saindo de área endêmica no Senegal, chegou aos EUA onde teve relações sexuais com sua esposa e ela veio a apresentar quadro confirmado de infecção pelo Zika.

A aproximação do Carnaval, com sua consequente liberalidade sexual, em áreas onde já existem muitos casos da doença, pode levar a uma “duplicação” da ação do mosquito, isto é, basta o mosquito picar uma pessoa, para que duas venham a contrair a doença. Sexo sem proteção poderá levar a duas consequências: gravidez e infecção pelo Zika. Os riscos dessa associação já são bem conhecidos.

Uma campanha de conscientização da população sobre esse risco poderia levar a um aumento do uso de preservativos e maior proteção da população contra não só o Zika, mas outras doenças sexualmente transmissíveis. Todos só teriam a lucrar. Porém, infelizmente, os responsáveis do Governo parecem não ter essa preocupação, como não tiveram antes das copas.