A proposta cruel de Dráuzio Varella

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O Brasil é um desses lugares onde alguém fica famoso pelos motivos mais estapafúrdios. Dráuzio Varella é um desses exemplos. Dráuzio é um médico oncologista, especialidade que trata de câncer, que decidiu trabalhar voluntariamente com o quê? Tratando câncer de crianças carentes? Tratando câncer de populações de baixa renda? Não. Foi trabalhar num presídio para tratar presidiários com AIDS. Por que um oncologista decide tratar uma doença infecciosa é um mistério…

Alguns anos depois, Dráuzio lança um livro, misto de ficção e documentário, sobre a vida dos presos. Não sei se esse já era seu projeto desde o princípio ou se surgiu posteriormente. Esse livro lançou seu nome na mídia e, graças a uma visão bastante tolerante para com os presos, cai nas graças da Esquerda brasileira.

Em pouquíssimo tempo, Dráuzio passa a se tornar uma “autoridade” em Medicina. Como alguém que escreveu um romance é reconhecido como um médico de destaque é um dos mistérios da sociedade brasileira. Antônio Carlos Magalhães era médico, mas ninguém nunca considerou suas ideias em relação à Medicina como mais interessantes do que as de um arquiteto.

Apesar de não ser reconhecido por seus pares, nem no meio oncológico, nem no meio da infectologia, a facilidade de expressão de Dráuzio conquistou jornalistas. Médicos geralmente são péssimos de mídia. Você faz uma pergunta simples e o médico fala por meia hora, usando termos técnicos incompreensíveis. Dráuzio sabe falar em rádio e TV. Frases curtas, simples (até simplistas) e que todo mundo, mesmo após anos de Paulo Freire, consegue entender. Isso é ouro para a mídia.

Com isso, Dráuzio passou a introduzir suas posições pessoais como sendo posições abalizadas do meio médico. Paradoxalmente, Dráuzio não acredita no efeito da psique sobre o corpo, ridicularizando ideias de que a mágoa, o rancor, a depressão poderiam causar doenças físicas. Tudo se limita a genes e microrganismos. Como um oncologista pode não crer no efeito da psique sobre o corpo, eu não sei…

Também seu ateísmo, muitas vezes, é citado como exemplo de racionalismo científico, quando não passa de uma crença no Nada tão religiosa quanto a crença em Deus. Dráuzio defende o aborto, disfarçando essa defesa com uma preocupação com a saúde das mães, que buscam meios clandestinos de aborto. Também é favorável à descriminalização da maconha. Com isso, ganha pontos junto a alguns setores radicais da sociedade. Sua ideologia esquerdista também contribuiu para conquistar o respeito dos jornalistas, sendo quem um deles já chegou a chamá-lo de “o Pelé da Medicina”. Não conhecemos os mil gols médicos desse “Pelé”.

Porém, essa influência sobre a mídia brasileira, torna-se extremamente perigosa e até cruel quando Dráuzio começa a defender suas ideias esquerdistas em relação ao atendimento do SUS.

Recentemente, ouvi Dráuzio defender que as pessoas que possuam algum plano de saúde não deveriam poder ser atendidas pelo SUS. Curioso ver como ele se mostrava indignado com essas pessoas, como se elas fossem criminosas por terem um plano de saúde e ainda terem a petulância de utilizar um serviço público de saúde. Ele afirmava que o SUS deveria ser só para as pessoas que não têm nenhuma alternativa.

Eu poderia comentar sobre a queda da qualidade dos planos de saúde e como algumas pessoas têm extrema dificuldade para achar um determinado especialista em sua cidade ou bairro, muitas vezes recorrendo ao serviço público pela comodidade. Proibir que essas pessoas sejam atendidas, pode levar até a morte.

Mas vou me ater ao sentido antidemocrático da proposta de Dráuzio. A Constituição brasileira definiu que a saúde é um direito de todos. Podemos até questionar esse ponto, mas ele está lá e não foi mudado. Portanto, ter um plano de saúde não te torna estrangeiro (que, aliás, também é atendido pelo SUS mesmo que esteja no país clandestinamente) ou “menos brasileiro”. Se formos pensar em termos de valores absolutos, boa parte do dinheiro do SUS vem justamente das pessoas que também possuem planos médicos, através dos impostos. Vetar o atendimento a essas pessoas criaria uma situação absurda onde uma pessoa é obrigada a pagar por um serviço, mas proibida de utilizá-lo.

Há muitas décadas, cada profissão tinha seu próprio instituto de saúde e pecúlio. Os bancários, por exemplo, contribuíam para um instituto que fornecia atendimento médico e aposentadoria. Profissões fortes, com bons salários, tinham ótimos institutos. Já profissões fracas ou com rendimentos baixos tinham institutos mais modestos. Quem não trabalhava ou tinha uma profissão que não tinha instituto, precisava recorrer aos hospitais públicos, que eram poucos.

Um dia, o Governo teve uma brilhante ideia: unificar todos os institutos e contribuições em um único instituto, o INPS. A previdência social foi unificada, nivelando as aposentadorias por baixo. E o atendimento médico também foi unificado num sistema único de saúde, o SUS, que universalizou o atendimento, jogando a qualidade para baixo, o que estimulou as pessoas das classes média e alta a pagar planos de saúde.

Se, agora, essas pessoas forem proibidas de serem atendidas pelo SUS, o Estado terá aplicado um dos maiores golpes da História. Quem tinha um bom atendimento, foi obrigado a integrar o SUS para, depois, ser proibido de utilizá-lo. Só mesmo alguém que ache que escrever romances, torna um médico uma autoridade em administração de saúde, poderá aceitar esse golpe como algo legítimo.