A Obrigação da Gentileza

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Após saber do projeto de lei de um vereador de Santos que transformaria todos os assentos do transporte público em preferenciais, prometi escrever um texto sobre o assunto. Principalmente após uma “denúncia” de usuários do Hospital Guilherme Álvaro, na mesma cidade, de que não haveria atendimento preferencial lá. Um responsável pelo setor teria respondido que todos ali estavam doentes, portanto não havia sentido em atendimento preferencial.

Vamos a um pouco de história. Quem já viveu um pouco, como eu, deve se lembrar que, era muito comum, no passado, que um idoso ou uma grávida em avançado estado, recebesse de algum passageiro um assento. Isso era uma cena tão bonita de se ver! Era um exemplo para os outros, que aprendiam com essa gentileza.

Aí, uma pessoa bem intencionada (daquelas que o Inferno está cheio) decidiu criar uma lei obrigando que existisse um atendimento preferencial para idosos, deficientes físicos (sem definir claramente o que seria isso), gestantes e mulheres portanto crianças no colo.

Os motivos pelos quais esse grupo, e não outro, foi escolhido nunca ficou bem claro. Mas a partir daí o que vi (e imagino não ter sido o único) é que esse grupo, particularmente os idosos, passou a ser odiado por boa parte da população. E por que isso? Vou descrever algumas situações reais. Nenhuma foi inventada.

Estou esperando a entrega do meu carro que estava em revisão. Necessário imprimir a nota para que eu pague. Está demorando um pouco. Uma mulher, ao meu lado, também espera, porém há menos tempo que eu, a impressão de sua nota fiscal. De repente, essa mulher entra no seu carro, pega uma criança que estava dormindo na cadeirinha do banco de trás e vai até o caixa e diz, em alto e bom som que é advogava e que tem prioridade para ser atendida, pois está com uma criança no colo. Sua nota fiscal é impressa e eu aguardo ainda mais.

Obviamente que o criador da lei não pensou que qualquer mulher que pudesse ter uma criança no seu colo em algum momento do dia tivesse a preferência. A idéia era que é um peso a mais, o que é cansativo, portanto essa mulher deveria ser atendida antes. Se a criança pode estar num carrinho ou na cadeirinha do carro, por que o atendimento preferencial? E pegar no colo uma criança de 5 anos, que pode muito bem ficar de pé, é uma forma de trapaça que a lei não previu.

Estou eu e minha irmã na porta de uma fábrica de chocolates em São Paulo. Essa fábrica ficou famosa pelos seus bombons, muito bons e baratos. Tanto que muita gente os compra para revender. Por isso, num sábado, antes da abertura da loja, já existe uma pequena fila. Num dado momento, uma senhora pergunta: Onde está a fila preferencial? Ninguém responde. E ela começa a organizar essa fila escolhendo uma senhora idosa para ser a primeira e, é claro, sua própria mãe para ser a segunda. Na conversa que se segue, constato que quem irá comprar os bombons, para revender, é a filha. Mas ela trouxe a mãe idosa como uma “arma” para passar na frente de quem chegou antes…

Deve haver fila preferencial para compra de bombons? O autor da lei, é claro, pensava em atendimento bancário, serviços públicos, etc. Serviços ditos supérfluos, diversão, lazer e futilidade precisam de atendimento preferencial? Deve haver fila preferencial para entrar na balada? Fica aqui a dúvida.

Mulher, aparentemente comum, requer atendimento preferencial e, para isso, mostra um exame laboratorial que comprova que ela está grávida. Nem tem barriga ainda…

O autor da lei, ao pensar numa gestante, obviamente não pensou na mulher que acaba de vir do motel com seu óvulo sendo fecundado há 10 minutos. Pensava numa gestante de 6 meses ou mais, com um barrigão pesado, dificuldade para andar e ficar muito tempo de pé. É claro que eu posso alegar que minha barriga é maior que a de uma gestante de 9 meses e que eu também me canso de ficar de pé muito tempo por esse sobrepeso (que também equivale a levar uma criança no colo). Alguém pode alegar que o gordo só é gordo porque quer (o que nem sempre é verdade), mas nesse caso, só gestantes fruto de estupro poderiam ser beneficiadas não é?

Estou há uma hora no Santander, esperando atendimento. Esse banco se caracteriza por não ter uma fila preferencial, mas senhas diferenciadas. Qualquer caixa pode atender os preferenciais. Existe algum sistema que “distribui” os chamados de acordo com o número de pessoas aguardando, ou tempo, sei lá. Mas noto que, em alguns momentos, se chama vários preferenciais e, noutros, um ou dois comuns, seguido de um preferencial. Um senhor idoso, que caminha facilmente, até que bastante ágil, chega e se senta ao meu lado. UM MINUTO depois, começa a falar alto que o atendimento preferencial está demorando, “quem está atendendo os preferenciais?”, etc. Os caixas então passam a chamar somente os preferenciais até que esse senhor é atendido, para de reclamar e vai embora, enquanto eu continuo esperando, há mais de uma hora…

Quem já passou por algo assim, olhe os rostos das outras pessoas. Observe o ódio por trás daqueles rostos. São pessoas comuns, que até gostam de idosos, têm mães, pais, avós idosos, mas naquele momento, se pudessem, mandavam jogar todos os idosos no mar. É isso que essa lei deixou de legado.

Agora vamos entrar na minha área. Antes dessa lei, trabalhei num ambulatório onde o paciente era marcado para um determinado dia e era atendido conforme ordem de chegada. Porém, era tradicional, a secretaria entrar e dizer “Doutor, esse senhor aqui é BEM IDOSO. Posso passar na frente?”; “Doutor, essa paciente veio em cadeira de rodas. Posso passar na frente?”. Porém, também era comum a secretária dizer “Essa moça está passando mal. Posso passar na frente?”
NUNCA tive problemas com pacientes reclamando dessas alterações de ordem de atendimento. Sabe por que? Porque elas eram lógicas e morais. Atendiam tanto ao cérebro como ao coração.

Um paciente cadeirante, atleta de time de basquete, que viesse passar só para obter um relatório ou pegar uma receita, ficava na fila. Isso é cruel? Não acho. Isso é tratar o cadeirante exatamente como se diz que eles devem ser tratados: como pessoas comuns. Agora, a pessoa estava na cadeira de rodas porque tinha tido um AVC RECENTE, porque mal conseguia andar por fraqueza, etc. era passada na frente.

Um idoso vinha passar para pegar uma receita de uma medicação que usava cronicamente, mas tirando isso estava bem? Aguardava sua vez. Um idoso, caindo aos pedaços (o que a secretária chamava de “bem idoso”), talvez até com idade menor que o idoso anterior, mal conseguindo ficar de pé? Passava na frente.

Uma jovem, com uma crise enxaqueca de 3 dias, vomitando até a alma, pálida, fraca, apoiada nos braços dos pais? Passava na frente.

Como haver atendimento preferencial num atendimento médico? Teoricamente ninguém procura atendimento médico (pelo menos neurológico) por estar bem. Ou seja, TODOS merecem atendimento prioritário. Então, como definir quem é atendido antes? Pela ordem de chegada e por exceções claras como as citadas.

Hoje em dia, a secretária me liga e avisa que o senhor fulano, é cadeirante. Na verdade, ele usa cadeira de rodas há 10 anos, mas passará na frente de quem chegou antes e mesmo que quem está muito mal, mesmo que ele tenha vindo pegar uma receita de medicação que usa cronicamente e esteja estável. Ou seja, a lei acabou criando uma injustiça.

Haverá quem diga que só foquei nas exceções, o que discordo. Na prática, isso está se tornando não só muito comum, como os beneficiários da lei estão ficando cada dia mais intolerantes, exigindo “seus direitos” sem nenhuma consideração com quem será prejudicado. Sim! Prejudicado. Entendam que não se faz milagre. Se alguém será atendido antes, significa que alguém será atendido mais tarde por isso. Alguém que pode se atrasar para um compromisso ou até se prejudicar por isso. Essa pessoa, antes da lei, poderia até ceder sua vez na maioria das vezes, mas não num dia em que estaria com pouco tempo. Hoje, é obrigada a ceder sempre e se revolta intimamente contra quem tem esse privilégio. A lei mudou a cabeça das pessoas. O que era uma gentileza, hoje é um direito alienável para os beneficiados e um abuso para os não beneficiados.

De uma lei que pretendia tornar a gentileza obrigatória, se transformou numa lei que tornou a gentileza um transtorno…

Agora vamos ao projeto de lei do digníssimo vereador de Santos. Não tenho dúvidas de que esse projeto será aprovado. Ele tem tudo para isso: é demagógico, populista, lida com a culpa subconsciente das pessoas e é politicamente correto.

Uma vez aprovado, criaremos uma situação curiosa. Os usuários que pagam por um serviço, não terão direito a ele, a menos que nenhum outro usuário “especial” necessite. Lembrando que muitos daqueles usuários incluídos como “preferencial” já não pagam pela passagem de ônibus (idosos e deficientes). Ou seja, um trabalhador, após passar o dia todo trabalhando, terá que ceder seu lugar, pelo qual pagou, para alguém que não paga pelo serviço.

Quando se fala de sociedades antigas, muito se comenta sobre o fato dessas sociedades serem mantidas por uma maioria de escravos, servos ou trabalhadores que geravam a riqueza, mas que tinham poucos ou nenhum direito, enquanto uma minoria da elite, usufruía da riqueza gerada e de todos os direitos. Invariavelmente se mostra essas sociedades como injustas e opressivas. Porém o que se está propondo agora? Que uma maioria de trabalhadores mantenha um serviço de transporte com seu dinheiro para que uma minoria de idosos, gestantes, deficientes e mulheres com crianças no colo usufruam? Qual a diferença?

E o ilustre vereador não pensou numa coisa: imaginemos que o ônibus esteja totalmente cheio. Entra um idoso (ou gestante, tanto faz). Quem se levanta para ceder seu lugar (por força de lei)? O mais jovem? O mais saudável? A mulher com menos chance de estar grávida (uma freira por exemplo)? Ou o “preferencial” escolherá sua “vítima”? Ele é que dirá “Levanta daí que eu quero o seu lugar!”?

É realmente “caridoso” um projeto que prevê que uma enfermeira, após um plantão onde ficou de pé o tempo todo, não tem direito a voltar para casa sentada, mesmo que pegue o ônibus no ponto inicial? Quanto tempo levará para que, a entrada de um “preferencial” no ônibus seja vista com rancor?

Com isso, aquelas pessoas que deveriam despertar a compaixão por parte da sociedade passarão a despertar revolta, despeito e até ódio.