As Palavras de um Rei

* Artigo Publicado em 2007 no Blog Roberto Carlos Internacional

Palavras do Rei

João Gilberto que iria participar do último especial de tevê do Rei e furou.

“Comecei cantando bossa nova. Tinha músicas do João no repertório e até cantava parecido com ele. Eu sempre quis ter o João em um especial meu, só que o deste ano iria ser feito no Maracanã. Quando resolvemos que o especial não seria feito no estádio, convidei o João para fazer em um lugar em que houvesse as condições de som que ele gosta. Só que avisamos em cima da hora e ele tem compromissos. Ficaria contente se ele pudesse adiá-los (risos). Tenho certeza que a gente faria um bom número”.

O começo de tudo

“Carlos Imperial já tinha me ajudado no primeiríssimo disco, me apresentando ao Chacrinha, que me levou para a Polydor para fazê-lo – era um 78 rpm, com ‘João e Maria’. Depois pedi ao Imperial que desse um jeito de me levar para a CBS, porque eu já tinha procurado todas as gravadoras do Rio de Janeiro e nenhuma quis gravar comigo (risos).

Todas diziam que já haviam muitos artistas de bossa-nova. Faltava a CBS, aí procurei o Imperial e falei: ‘bicho, liga pra lá, pede, sei lá… um encontro lá pra gente conversar’.

Tem uma história curiosa: o Carlos se chamava Carlos Eduardo Côrte Imperial e o diretor da época da Sony, o presidente da Sony, se chamava Roberto Côrte Real (risos). O Imperial ligou pra gravadora e falou com a secretária: ‘Eu sou o Carlos Eduardo Côrte Imperial. Queria falar com o Roberto Côrte Real’ (risos). Eu corri para Lins de Vasconcelos, onde eu morava, para botar um paletózinho. Fui lá conversar com ele e gravei meu primeiro LP”.

Quero que vá tudo pro inferno e TOC

“Teve uma época da minha vida em que comecei a não querer cantar certo tipo de música. Talvez, até pelo Transtorno Obsessivo-Compulsivo, comecei a não querer mais cantar certas palavras. Durante muito tempo minhas obsessões foram vistas até por mim mesmo como superstições.

Mas depois que a ciência descobriu que esse transtorno se confundia muito com esse tipo de coisa, cheguei à conclusão de que não sou supersticioso: eu tenho TOC! Superstições, tenho aquelas que muita gente tem, de sair sempre pela mesma porta. Isso é comum, é curso primário do supersticioso (risos). Agora, quanto ao TOC, eu comecei a fazer um tratamento… E quem sabe eu volte a cantar essa música?”

Anos 60

”Eu comecei gravando na CBS, em três canais. Botava a voz e não podia errar, porque não dava pra voltar. Para voltar, tinha que parar a máquina, cortar a fita com a gilete, emendar e continuar daí para a frente. Era mais ou menos dessa forma.

Hoje em dia você grava em 92 canais e com a ajuda de outras máquinas pode adicionar outros canais na gravação. Demora muito mais, porque antigamente você lidava com três ou quatro canais. Hoje é com 90, 100 canais e para mexer com tudo isso leva tempo. Isso justifica que eu demore um pouco mais (risos)”

Roberto no Divã 1

“Posso dizer que melhorei razoavelmente desde que comecei o tratamento. Já não estou mais gago como antigamente (risos). Não sei se eu posso dizer em que consiste a terapia, porque não sei como ela é para os outros casos. Ela pode ser feita com remédios, mas eu preferi fazer sem eles.

É preciso que se confie muito no terapeuta, fazer aquilo que ele diz, mesmo que seja difícil enfrentar aquilo que ele propõe. Porque em seguida, o resultado pode ser notado. O momento de enfrentar e atacar o problema é muito difícil, mas a partir do momento em que você ataca, a coisa começa a ficar mais fácil.”

Roberto no Divã 2

“Falei até para a terapeuta: ‘tudo bem que eu vou mudar muita coisa, mas vai ser muito difícil eu usar marrom e deixar de usar azul’. Na minha terapia eu falo das coisas que me incomodam, mas azul é uma cor que eu gosto. Uso azul desde menino, embora eu… acho que tenho TOC desde menino (risos).

Não é para rir não, é para chorar! (rindo). Mas eu já estou usando uns azuis mais escuros, isso veio de uma forma mais progressiva. Daqui a pouco vou estar usando branco, que usava. Mas marrom não vou usar, não! (risos)”

Roberto no Divã 3

“Nesses cinco anos recentes, eu piorei muito do TOC, o que foi explicado até pela própria terapeuta. Aí Dody Sirena – meu empresário, irmão, amigo – conversou com a Luciana Vendramini. Ela contou tudo sobre o problema que tinha que era muito grave.

Isso me animou a procurar os mesmos recursos, mas demorei uns três meses para decidir procurar o tratamento – o que já era uma coisa do TOC… Você quer, mas não faz… O primeiro, vamos dizer, ‘toque’ que tive sobre o TOC (risos) foi com meu filho Dudu, que me mandou um recorte do jornal sobre Obsessão Compulsiva. Vi que o cara que tem essa doença é um sofredor.

Uma pessoa abrir uma porta e voltar e voltar de novo… Pode parecer engraçado pra quem vê, mas é um sofrimento para quem faz. E foi o primeiro detalhe que me chamou atenção para aquilo que eu pensava que fosse apenas superstição. Pode ser que isso influencie na minha música, que eu comece a não me censurar tanto em relação às coisas que eu tenha vontade de falar.

Cantar ‘Imoral, Ilegal ou Engorda’ no DVD já foi um exemplo… Pode ser que uma liberdade maior em relação a mim mesmo, de abordar certos assuntos, de forma às vezes muito mais direta.”

Minha fé me leva até você

“Hoje me considero um cara realista, vejo minha fé de forma realista. Numa entrevista em que me perguntaram se eu achava se a fé removia montanhas, eu disse que achava que ela ajudava a subir a montanha, ou dar a volta. A fé ajuda e muito. Mas não muda o curso das coisas.

Cria uma energia positiva que te impulsiona que te faz acreditar que você pode fazer as coisas, resolver seus problemas. Eu reúno todas as minhas forças para ver as coisas de uma forma melhor.”

Soul

“Naquela época (1969/1970), eu já fazia rock romântico. Sempre fui romântico, as letras eram assim. Em determinado momento, comecei a ouvir soul e pensava que cantava parecido com os cantores de soul (risos). Eu chegava a um estúdio e tinha a pretensão de fazer aquilo que eu ouvia os cantores de soul fazerem, com ‘As Curvas da Estrada de Santos’.

Pensava que era o que eu podia fazer, porque era uma questão de timbre de voz. Isso foi a ponte para uma fase mais romântica da minha carreira, a partir dos anos 70.”

Detalhes

“Eu lembro que uma noite comecei a fazer essa música e achei que tivesse feito uma coisa muito boa. Eram dois versos. No dia seguinte fui ouvir e pensei: ‘caramba, isso aqui não tá com nada. Será que eu bebi ontem? ’. Aí comecei a refazer do princípio, fiz os dois versos e achei legal. Trabalhei um pouco mais. Eu morava em São Paulo, o Erasmo também, aí chamei ele para a gente continuar.

Lembro que uma coisa que me incomodava era ‘o ronco barulhento do seu carro’. Lutei muito para trocar essa palavra, ‘ronco’, mas foi para caracterizar um carro trabalhado, com escapamento. Fiquei preocupado com isso por meses, cada vez que passava por essa frase ficava olhando a expressão das pessoas para ver se elas torciam a cara. Mas elas olhavam isso com naturalidade. Até mesmo o diretor da gravadora, Evandro Ribeiro, gostava.”

Amigo de fé, irmão camarada

“Estava fazendo um disco para esse fim de ano, aí marquei um encontro com o Erasmo. Só que resolvemos fazer esse DVD ao vivo e nosso encontro ficou para o ano que vem.

Mas o que eu quero que fique muito claro é que nunca houve problema. Simplesmente comecei a fazer umas canções que eu queria compor sozinho e ele entendeu isso muito bem. Nunca houve qualquer tipo de estremecimento entre nós. Eu e Erasmo somos amigos acima desse tipo de coisa.

Nós somos os tipos de amigo que liga um para o outro no dia do aniversário e diz: ‘tô ligando pra você me dar os parabéns porque você não me ligou até agora! ’.”