Análise Poética de “O Portão”

Meu retrato ainda na parede… Meio amarelado pelo tempo…

O Portão é uma das músicas mais difíceis de ser analisadas. Isso porque é extremamente simples. Já se auto-explica. Mas alguns ‘detalhes’ podem ser encontrados. Lançada em 74, ela está em um disco que parece tem um leve protesto, em músicas como Despedida (a despedida de um exilado político), É Preciso Saber Viver (que talvez tenha perdido a segunda parte para ganhar um novo sentido, menos Romântico), Eu Quero Apenas (‘Quero meu filho pisando firme, cantando alto, sorrindo livre’ em plena ditadura política). ‘O Portão’ parece ser a chegada de um exilado, mas sem perder o clássico estilo romântico de Roberto e Erasmo.

O Portão
Roberto Carlos; Erasmo Carlos

Eu cheguei em frente ao portão/ Meu cachorro me sorriu latindo/ Minhas malas coloquei no chão/ Eu voltei/ Tudo estava igual como era antes/ Quase nada se modificou/ Acho que só eu mesmo mudei/ E voltei…

Erasmo já disse que adora fazer essa imagem, que aparecem muito em o O Portão. A ideia de O Portão era de alguém a muito tempo longe de casa, e a primeira coisa que ele vê é o cachorro abanando o rabo… Mas como falar ‘Meu cachorro me abanou o rabo’ em uma música romântica? Nasceu “Meu cachorro me sorriu latindo”. Fantástico. Ele vai descrevendo como em um filme em primeira pessoa sua chegada. As imagens se formam com grande facilidade. Ao chegar ele faz uma reflexão sobre esse tempo fora de casa.

1º Refrão:
Eu voltei agora pra ficar/ Porque aqui, aqui é meu lugar/ Eu voltei pras coisas que eu deixei/ Eu voltei…

Aqui ele decreta: Não deu para ficar longe de casa. Foi por causa do lugar, ou de quem está nele que não deu pra ficar longe.

Fui abrindo a porta devagar/ Mas deixei a luz entrar primeiro/ Todo meu passado iluminei/ E entrei…/ Meu retrato ainda na parede/ Meio amarelado pelo tempo/ Como a perguntar por onde andei/ E eu falei…

A descrição continua, e a facilidade das imagens também. Ele está com um pouco de receio, afinal ele não sabe se as pessoas mudaram com o tempo que esteve distante… Então ele vê que por dentro da casa nada mudou. E pensa: ‘Se ela perguntar o que eu vou falar?’

2º Refrão:
Onde andei não deu para ficar/ Porque aqui, aqui é meu lugar/ Eu voltei pras coisas que eu deixei/ Eu voltei…

Não deu pra ficar longe do que e de quem se ama. Aquele é seu lugar. As lembranças não não ficaram para trás…

Sem saber depois de tanto tempo/ Se havia alguém a minha espera/ Passos indecisos caminhei/ E parei…/Quando vi que dois braços abertos/ Me abraçaram como antigamente/ Tanto quis dizer e não falei/ E chorei…

A casa está como sempre… Mas e quem mora nela? Será que ainda está lá? Ele sente um frio na barriga. Caminha sem decisão… E vê, ‘dois braços abertos’ que o ‘abraçaram como antigamente’. E não deu para conter as lágrimas…

1º Refrão
Eu cheguei em frente ao portão/ Meu cachorro me sorriu latindo

E então ele relembra esses primeiros detalhes… A chegada e o ‘sorriso’…