Olhar Atual

O perigo do clientelismo nas eleições municipais do Brasil

Caro leitor, você sabe o que é clientelismo? Muitos desconhecem o significado desta palavra, porém ela desencadeia muitos perigos e instabilidades, sobretudo nos âmbitos institucional, democrático, constitucional e jurídico. O clientelismo se caracteriza por conchavos promíscuos entre dirigentes políticos e cidadãos em troca do ‘apoio’ destes durante cada pleito eleitoral – a partir do voto – e da proteção e/ou ‘gratificações materiais e financeiras’ daqueles dentro da máquina pública, seja através de indicações ou cargos em estatais, secretarias ou em agências reguladoras.

Este tipo de conduta permissiva está muito presente na América Latina, inclusive no Brasil, e remonta a um histórico de sociedades de países subdesenvolvidos, que durante séculos foram colônias de exploração e grandes reservatórios de latifúndios escravocratas. A partir deste fato, populistas incorporaram um modelo social baseado no patriarcalismo e no paternalismo, em que estes, ao alcançarem o poder, controlam exaustivamente os passos dos indivíduos, suprimindo suas liberdades individuais, de modo que o Estado se centraliza na figura messiânica do ‘líder’ e de seus asseclas, encarregando-se de taxar os cidadãos – por meio de regulações e burocracia esdrúxulas – e ditar padrões autoritários de comportamento, a partir de medidas politicamente corretas e coercitivas que ocasionam a degradação moral de toda uma sociedade ao longo de gerações.

Infelizmente, há candidatos que tratam eleitores como ‘clientes’ e o processo eleitoral como balcão de negócios, presenteando dinheiro, objetos, promessas de cargos e inserção em programas assistencialistas que perpetuam o comodismo e a subserviência. De onde vem tanta verba para financiar a farra? Sobretudo, da arrecadação abusiva de tributos mal empregados na prática, de empreendedores da iniciativa privada e de seus colaboradores. Lamentavelmente também há quem venda a dignidade, a consciência e o voto por pataca, apenas por benefício próprio. Afinal, quem nunca viu militantes pelegos de ditos movimentos sociais e sindicatos com uniformes vermelhos bradando palavras de ordem e clichês em ruas e bloqueando vias em detrimento de tubaína e mortadela? Ou quem nunca ouviu pessoas afirmando que votarão em ‘fulano’ por ter conseguido ‘isso ou aquilo’, muitas vezes atribuindo a certa autoridade algo longe de existir, apenas por proselitismo e emoção demagoga? Ou ainda quem nunca se debruçou com determinados setores midiáticos que reproduzem a agenda e a ideologia ‘progressista’ pela garantia de subvenções?

Não existem privações ou relativismos que justifiquem esta conduta, visto que corruptos e corruptores alimentam este ‘monstro’ que tanto devora os princípios éticos mais elementares e, consequentemente, impede mudanças de hábitos e compromissos com o desenvolvimento da nação, dos estados ou dos municípios. Além disso, compromete a democracia, visto que há quem se mantenha nas entranhas do poder há décadas em vários grotões do Brasil, vendo-os como feudos ou em negociatas sorrateiras por propina, por postos em governos e por influência na condução de estatais.

Às vezes, nos deparamos com muitas reclamações e sentimentos de repulsa em relação à política, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Permeiam indignações contra a corrupção e a carga tributária abusiva com péssimos serviços prestados, também. Nota-se uma contradição, pois com que direito e moral essas pessoas criticam o ‘sistema’ se comercializam o seu voto como vassalos em troca de recompensas ou privilégios, não se esforçando para conhecer melhor a trajetória dos candidatos, as proposituras lançadas e as ideias para transformar a realidade positivamente?

O voto é, ainda, um mecanismo de cidadania importante que a sociedade possui. Através dele – depositado com sensatez -, pode-se cobrar transparência e legalidade nas instituições públicas, reformas, avanços na infraestrutura e mais investimentos. Não cabe só ao Poder Legislativo a tarefa de fiscalizar e denunciar irregularidades, uma vez que gestões são temporárias e o poder de um povo educado é permanente.  O progresso de um país ou de um município está no empreendedorismo, na independência dos poderes, na solidez das instituições republicanas e no enxugamento do Estado para gerar mais empregos, reduzindo entraves protecionistas. Somente o trabalho resulta a locomotiva ideal para elevar a produtividade e as habilidades do ser humano. Por isso, é muito importante inteirar-se sobre as intenções dos nossos representantes no Parlamento e no Executivo. 2016 é ano de eleições municipais e essa é uma excelente oportunidade para refletir sobre esta temática.

 

Marcelo Cabral

Comunicador diplomado, articulista e professor de língua espanhola. Tenho interesse especial em temáticas como política, economia, comportamento, turismo e cultura latino-americana.