Olhar Atual

Fosfoetanolamina, esperança ou ilusão?

Um dos efeitos colaterais perigosos de um governo pouco confiável é que tudo que vem desse governo, até mesmo de seus órgãos mais distantes do governo central, é alvo de suspeição. Uma proibição vinda de um governo confiável é vista como um ato de proteção à Sociedade. Porém, a mesma proibição, quando vinda de um governo suspeito, incompetente ou corrupto, é vista como alguma forma escusa de prejudicar a população.

Pode ser isso que esteja ocorrendo com o caso da Fosfoetanolamina sintética. Por algum motivo, pessoas que não possuem nenhum conhecimento técnico seja de química, farmacologia ou medicina, saem afirmando categoricamente que a falta de liberação dessa substância para o uso dos pacientes com câncer é fruto de algum esquema suspeito visando prejudicar esses pacientes.

Infelizmente, muitas informações errôneas são divulgadas por pessoas bem intencionadas. O objetivo desse texto é esclarecer alguns pontos. Vamos a eles:

A Fosfoetanolamina sintética é uma poderosa droga antitumoral
Não. A Fosfoetanolamina é um composto químico orgânico presente naturalmente no organismo de diversos mamíferos. Ela ajuda a formar moléculas que participam da estrutura das membranas das células e das mitocôndrias. Além dessa função estrutural de formar a membrana celular, ela possui ainda uma função sinalizadora, ou seja, a fosfoetanolamina informa o organismo de algumas situações que as células estão passando. Esse segundo efeito é que pode ser útil para o combate ao câncer.

O descobridor da Fosfoetanolamina abriu mão da patente em favor dos pacientes com câncer
Não. O Professor Gilberto Chierice nunca poderia patentear uma substância natural, mesmo que artificialmente sintetizada. Além do mais, ele não foi o descobridor dessa substância. A Fosfoetanolamina sintética começou a ser sintetizada pelo químico Gilberto Chierice, então professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) no final da década de 1980, portanto há 36 anos. Nesse período, não deixa de ser curioso que, apesar das alegações de sucesso no combate ao câncer, não foi possível fazer um único estudo sério que comprovasse esse efeito. Esse prazo é extremamente longo para uma substância que seria tão importante. Alegações de que é tudo difícil no Brasil não se justificam, uma vez que até universidades estrangeiras estariam dispostas a financiar um estudo tão importante assim.

O Professor Gilberto Chierice distribuía gratuitamente a substância
Chega a ser impressionante que pessoas que se digam de direita afirmem isso. As únicas coisas que o Professor Chierice poderia distribuir de graça seria sua urina e fezes. Tudo tem um custo! No caso, se a substância era sintetizada pelo IQSC, era da verba desse instituto que saía a produção da substância. Ele alega que foi do bolso dele, mas é do IQSC que a Justiça obrigou a distribuição, então é de lá que sai o dinheiro. Agora, imaginem se todos os pacientes com câncer fossem ser beneficiados com a distribuição gratuita dessa substância. Não sobraria dinheiro nem para o pagamento dos salários…

Não deixaram o professor distribuir a substância
Na verdade, o que ocorreu foi uma coisa muito benéfica para a população. Ninguém quer se tratar com medicações inócuos, que não trarão nenhuma melhora. É para isso que existem regras para a comercialização e, inclusive, distribuição de substâncias com alegados efeitos terapêuticos. Em novembro de 2011 a Academia Brasileira de Ciências (ABC) manifestou-se contrariamente ao uso da fosfoetanolamina em seres humanos. Dentre outras razões, o comunicado da ABC informa que não há evidências pré-clínicas documentadas e oficiais sobre a toxicologia, testes em animais, testes da farmacologia, a eficiência da droga sua segurança e não há, também, estudos clínicos (testes em humanos) comparando sua eficiência aos tratamentos convencionais contra o câncer. A fosfeoetanolamina faz parte de uma medicação anti-câncer, porém de forma complexa com outra substância. Não é possível dizer que, só porque ela faz parte de uma medicação, também funcionará de forma isolada. Por exemplo, o zinco faz parte da molécula de insulina. Nem por isso, diabéticos podem ser tratados somente com administração de zinco.
A Anvisa se manifestou, informando que “não tem como reconhecer, por absoluta falta de  dados científicos, a suposta eficácia da fosfoetanolamina para o tratamento do câncer, ou seja, os seus   efeitos são totalmente desconhecidos. Alertamos que todos os tipos de tratamentos devem ser fundamentados em resultados de estudos cientificamente comprovados.”

Mas existem vários casos de pessoas que melhoraram milagrosamente com a fosfoetanolamina
Não se pode definir se algo funciona ou não baseado em casos isolados. Para cada caso de sucesso, podem haver dez casos de fracasso. Qualquer pessoa que já tenha assistido a esses programas de igrejas que passam de madrugada já viu pessoas alegando curas milagrosas atribuídas a Deus, Jesus ou ao pastor em questão. Poder da fé, do pensamento positivo ou ilusão? Igualmente, já vimos vários casos de curas milagrosas atribuídas a tratamentos alternativos e outros tratamentos que, posteriormente, foram comprovados como sendo inúteis. Ou seja, ou tratava-se de coincidência ou, até mesmo, ilusão.

Agora minha opinião, como médico e como cidadão. Como cidadão, não quero correr o risco de usar medicamentos inúteis ou até danosos, mas que foram liberados pelos órgãos competentes somente devido a pressões por parte da população. Desespero nunca foi um bom conselheiro. “Mas não seria melhor que quem quisesse tomar, tivesse acesso? E quem não quisesse, não tomasse?” Isso é uma visão utópica e sem nenhuma conexão com a realidade brasileira. A imensa maioria da população brasileira não tem condições de avaliar, de forma racional, se toma ou não uma medicação. Milhões de brasileiros tomam, há mais de 5, 10 ou até 20 anos, calmantes que têm na bula um alerta para não serem utilizados por mais de 4 semanas!! Que fundamentação esses pacientes irão utilizar para decidir se tomam ou não uma medicação que não tem efeito comprovado?

Como médico, em 30 anos de Medicina, vi vários tratamentos milagrosos serem esquecidos, muitas vezes após seus idealizadores ficarem ricos ou famosos. Uma das coisas que estranhei demais nesse caso, é o comportamento do alegado “descobridor” da fosfoetanolamina. O que um químico faria se constatasse que alguma substância poderia ser benéfica para casos de câncer? Sairia distribuindo essa substância para pacientes, num ato que pode até ser caracterizado como exercício ilegal da Medicina? Claro que não. Ele procuraria um serviço bom de oncologia e iria propor um estudo científico, duplo-cego, controlado, para que, ao fim de alguns meses, os resultados fossem publicados e a comunidade científica brasileira e mundial tomaria conhecimento. Outros estudos seriam feitos em serviços diferentes, confirmando ou não os primeiros resultados. Foi isso que o Professor Chierice fez? Não…

O que ele fez foi sair distribuindo “gratuitamente” a substância. E, mesmo que resultados aparentemente tão bons, não teve a mínima curiosidade de fazer testes mais específicos para saber, por exemplo, se funciona para todos os tipos de câncer (algo muito pouco provável) ou se tem alguma indicação específica. O próprio Instituto de Química de São Carlos publicou uma nota afirmando que “não dispõe de dados sobre a eficácia da fosfoetanolamina no tratamento dos diferentes tipos de câncer em seres humanos – até porque não temos conhecimento da existência de controle clínico das pessoas que consumiram a substância – e não dispõe de médico para orientar e prescrever a utilização da referida substância.” Quando, devido à pressão popular, a Justiça determinou que a USP de São Carlos começasse a distribuir a medicação, num ato absurdo, uma vez que a própria Universidade se posicionou contra o uso da substância, alguns serviços decidiram fazer testes clínicos.

E é aí que o comportamento do professor ficou ainda mais estranho. Ele insuflou seus partidários (porque a essa altura essa questão já havia se transformado numa briga entre aqueles que apoiavam ou não o professor) alegando que não estavam permitindo que ele participasse dos estudos. Isso não existe no meio científico!! Um estudo tem que comprovar efeito da droga com ou sem a participação de qualquer pessoa. Ao fazer esse tipo de exigência, o professor já fez a profilaxia para eventuais resultados negativos. Se confirmarem que a fosfoetanolamina não tem efeito, ele poderá dizer que sabotaram os estudos, como se fosse do interesse de oncologistas ignorarem efeitos benéficos de substâncias. Aliás, esse tipo de fantasia, de que médicos são contra tratamentos eficazes, é muito comum em populações com pouco acesso à informações científicas.

Chierice disse: “Esse trabalho começou com uma instituição chamada Amaral Carvalho de Jaú. (…) As pessoas foram testadas não pelas regras da Anvisa, mas nas regras do Ministério da Saúde. Isso está documentado, apenas não existe um foro para registrar isso”, afirmou Chierice, que acrescentou: “é uma complicação muito séria, o hospital nos usou como trampolim e deixou acabar. Eu não tenho um dado clínico dessas pesquisas, mas tem um monte de gente que tomou. (…) O que estou pedindo não é nada para ninguém, é provar que não funciona”. No entanto, a reportagem do UOL entrou em contado com esse hospital e recebeu a resposta que “não existem registros oficiais no Hospital Amaral Carvalho da realização de testes em seres humanos portadores de câncer com a substância fostoetanolamina. A instituição não irá se pronunciar sobre o assunto”. Por que um hospital não iria querer ficar com a fama de ter sido o primeiro a testar com bons resultados um tratamento para o câncer.

O ponto alto desse comportamento passional, nada salutar para a Ciência, foi quando, na audiência pública nas comissões de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) e de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, o médico Renato Meneguelo chegou a ajoelhar-se no chão pedindo estudos com a substância, um comportamento teatral e bem pouco científico.

O oncologista Noam Pondé comenta: “É a fantasia que gera a profusão de remédios milagrosos e terapias alternativas que prometem a cura do câncer. Todo oncologista aprende a conviver, tolerar e, por vezes, até respeitar práticas alternativas. Mas, em algumas situações, especialmente quando o manto da ciência é usado para encobrir o pensamento mágico, a convivência entre oncologia e terapia alternativa se torna difícil. A fosfoetanolamina é um destes casos.” E complementa: “Portanto, do ponto de vista científico, está claro que um remédio nunca será “a cura do câncer”. As declarações sobre a polivalência da fosfoetanolamina, que age supostamente sobre qualquer tumor e em qualquer cenário clínico (seja tumor localizado ou disseminado) não fazem sentido do ponto de vista científico. Inibir o crescimento de células em laboratórios é uma coisa, em seres humanos é outra.”

Perdi meu pai e minha mãe devido ao câncer. Durante a doença de ambos, se alguém me dissesse que tomar urina de cavalo poderia curá-los, eu não hesitaria em fazer isso, esquecendo tudo que aprendi no curso médico. É por isso que pacientes e familiares não são as melhores pessoas para definirem se uma droga deve ou não ser liberada. Para isso temos testes, regras, protocolos e estudos científicos para justamente proteger essas pessoas desesperadas de tratamentos ineficazes e pessoas inescrupulosas.

Maurício Vilela