Olhar Atual

Desespere-se com os “Profissionais do Futuro”

No Boa Chance do dia 4 de junho, a jornalista Raphaela Ribas começa sua reportagem “Profissionais do Futuro” dizendo que as pessoas nascidas nas décadas de 1990 e 2000 são conectadas, criativas, ágeis e engajadas. Chego então à conclusão de que vivo em uma realidade paralela a da jornalista.

Será que a chamada Geração Z (que eu incluo em uma geração que chamo de Geração M. onde M não significa Milênio) é conectada? É verdade que eles não conseguem viver sem Internet e smartphones. Mas sua conexão tende a se limitar a “galera” e é extremamente superficial. Basta ver como eles debocham dos chamados “textões” (da qual este texto é um exemplo). O Twiter, criado em 2006, é o símbolo do tipo de conexão desta geração. Toda informação que eles estão dispostos a trocar deve caber em 140 caracteres. No Facebook eu já tive discussões interessantes com americanos, ingleses, alemães, iranianos e um iraquiano curdo agnóstico, entre muitos outros. Com quem a Geração M. se conecta e sobre o que? Eles sabem usar a Internet para corrigir um professor que tenha dito que 15 milhões de Ford Modelo T foram produzidos quando o número é 16.5 milhões, principalmente quando esta diferença é completamente irrelevante para o que o professor está tentando colocar. Mas quantos acessam a incrível base de conhecimento que existe na Internet? Quantos sequer conhecem bases como Internet Archive em www.archive.org (uma biblioteca com milhões de livros, filmes, software, música etc.)? Quantos acessam feeds da Fox News (www.foxnews.com) ou New York Times (www.nytimes.com)? A tão falada capacidade de conexão da Geração M. é assustadoramente limitada em extensão, qualidade e profundidade.

Eles são criativos? É difícil ser criativo quando você sequer tem vontade de se dedicar a um problema. Pode-se dizer que a Geração M. é criativa no mesmo sentido que a arte moderna é criativa. Na Arte há cânones que devem ser dominados para serem transcendidos. Pablo Picasso era capaz de pintar um belo quadro ‘normal’ como ‘Ciência e Caridade’, mas ele explora um novo caminho no Cubismo. E o Cubismo é um movimento que tem seu próprio cânone. Esta é a criatividade da Arte. Quando uma pessoa empilha um monte de caixas de sapato e chama isto de instalação ela não está sendo criativa, ela simplesmente desligou completamente seu senso crítico. Se um grande volume de pessoas desliga seu senso crítico, é provável que algo realmente criativo surja aqui ou alí. Mas o normal, neste caso, é que a produção seja o equivalente uma pilha de caixa de sapatos. Basta ver a qualidade típica da música que a Geração M. é capaz de produzir e consumir. A Geração M. desligou seu senso crítico, não se dedica a absorver cultura e é incapaz de dedicar tempo para resolver um problema. Dificilmente chamaria isto de ser criativo.

Eles são ágeis? A Geração M. não se caracteriza pela agilidade, mas pela impaciência. Ser ágil é se comportar de maneira rápida e expedita, mas também eficaz e diligente. Muitos são, de fato, expeditos no sentido de iniciar uma tarefa o mais rapidamente possível, mas muitos não são e não consideraria esta uma característica da geração. Eles podem ser rápidos, se não encontrarem obstáculos que exijam esforço contínuo e tedioso, o que, infelizmente para eles, é muito comum nos problemas pessoais e profissionais. Mas eles não são meticulosos ou cuidadosos o suficiente para serem diligentes. Tudo isto afeta sua eficácia. Você pode até receber algum resultado rapidamente, mas dificilmente será um bom resultado e frequentemente será inútil.

Finalmente, será que eles são engajados? Aos 16 anos eu li o Capital. Alguns anos depois me tornei um Liberal e um anticomunista ferrenho. Na Universidade eu fui presidente do Diretório Acadêmico quando os alunos da UFF invadiram o primeiro andar do prédio do MEC para, sem depredação e sem impedir ninguém de trabalhar, ou afetar o direito de ir e vir, ficamos acampados, dormindo mal e pouco, para apoiar a negociação do Reitor pela liberação de verbas cortadas. A superficialidade característica da Geração M. faz como que eles não sejam engajados, mas simplesmente úteis como massa de manobra para o pior tipo de gente. É uma geração sem capacidade de liderança e mais preocupada com seus próprios problemas individuais e com não ofender nenhum preceito politicamente correto do que se posicionar.

A jornalista continua citando defeitos da geração, como incapacidade de lidar com ‘uma dura’, baixo amadurecimento emocional e não saber lidar com barreiras. Com esta parte do artigo eu concordo totalmente. Hoje é moda ver aspectos positivos e negativos em tudo. Dizem que você não deve julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore. Isto é muito bonito! Mas me imagino na situação de um sargento que precise que o Soldado Fish suba em uma porcaria de uma árvore para pegar suprimentos que foram lançados de paraquedas e ficaram presos na árvore. Não existe, no mercado de trabalho e na sociedade, uma quantidade suficiente de posições adequadas para uma geração de peixes. E quem vai subir nas árvores? Inevitavelmente a Geração M. fornecerá os profissionais do futuro. Tremo de pensar que terei que passar em pontes construídas por eles ou ser operado por um médico desta geração. Talvez o fato deles estarem chegando ao Mercado de Trabalho durante a maior crise econômica da história do Brasil seja o choque de realidade que acorde esta geração de sonâmbulos, ou, pelo menos, os melhores entre eles.

João Ricardo