Considerações sobre a Reforma Curricular do Ensino Médio

Considerações sobre a Reforma Curricular do Ensino Médio

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Mudanças são necessárias e são bem-vindas no Ensino Médio brasileiro, mas nesses tempos de mudança na direção do país tudo é motivo para uma balbúrdia exagerada e às vezes até histérica. Tivemos alguns anos atrás o acréscimo de um 9º ano ao que se convencionou chamar de Ensino Fundamental para garantir que as crianças tivessem mais tempo de aula e assim chegassem mais preparadas ao 2º grau; isto foi implantado em 2007 e lá se vão quase 10 anos sendo que de fato não ocorreu nenhuma revolução no Ensino Médio, pelo contrário, a evasão que era de 5% antes do acréscimo deste ano letivo extra pulou para 19% após a sua adoção (dados de 2014) e nem diminuíram a mancha negra do analfabetismo funcional (55,4%, dados NOV/14).

Atualmente temos um Ensino Médio inchado com 13 disciplinas obrigatórias; tais disciplinas foram até maquiadas para não darmos conta da carga pesadíssima a que submetemos nossos jovens.

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“Transformando” essas 13 matérias em 4 grandes áreas do conhecimento apenas maquiou-se o problema, porque as 13 disciplinas continuaram a existir obrigatoriamente, sufocando o aluno, que em sua esmagadora maioria é obrigado a ver tal conteúdo em apenas um período diário (matutino, vespertino ou noturno) de 04h/dia. Aja paciência e dedicação!

O que a atual reforma pretende é flexibilizar o Ensino Médio e assim torná-lo mais atrativo para o aluno. Quem nunca ouviu a seguinte indagação de um aluno: “Mas eu quero ser advogado, pra quê eu devo saber as minúcias da Química?!“. Este é só um exemplo de vários que podem ser demonstrados e tem alguém que levante a mão e diga que este aluno do exemplo anterior está errado!? Ou advogados andam, corriqueiramente, calculando reações físico-químicas no seu dia-a-dia e eu não sei!? O basicão, desculpe o termo meio-chulo, os alunos já aprendem no Ensino Fundamental, o 2º grau deve prepará-los para a Universidade, para o Ensino Profissionalizante e/ou para o mercado de trabalho como um todo. E não para entupir o pobre do estudante de assuntos que não lhe interessam e que não farão diferença alguma em sua futura profissão seja ela qual for.

Então basicamente o que se pretende com a nova Reforma? O pilar de sustentação é manter o ensino de Matemática, Português e Inglês como matérias básicas e obrigatórias em todo os 3 anos do Ensino Médio (sim não será acrescentado nenhum “novo ano” ao 2º grau). Estas três matérias formam o eixo principal e não acho que aja necessidade de discutir o porquê disso; só deixo uma pequena nota àqueles que tem certa anglofobia, ou seja, que tem certa aversão aos países de língua inglesa, em especial aos EUA, meus amigos, infelizmente pra vocês, a língua universal no mundo ainda é o inglês e portanto esta é a razão de priorizá-la.

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Tivemos quatro das antigas disciplinas obrigatórias – Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física – deixando de ser obrigatórias; pareceu um parágrafo meio redundante, mas não o é! O escrevi assim para deixar bem claro que tais disciplinas não estão sendo extintas e sim estão deixando de ser obrigatórias, ou seja, serão ofertadas e poderão ser cursadas mediante o interesse do aluno e mediante o curso universitário e/ou profissão que o aluno pretenda seguir depois. Grande querela se arrumou em dizer que disciplinas como Sociologia e Filosofia “ajudam o jovem a pensar”; olha eu nem vou entrar no mérito da grande doutrinação esquerdista que ocorre principalmente nessas duas matérias em particular, vou me ater somente aos fatos concretos e mensuráveis de que se aumentou o número de adolescentes analfabetos funcionais, ou seja, aquele cidadão que mal sabe fazer os cálculos elementares e não consegue fazer a interpretação textual de algo mais avançado que um gibi, como tais disciplinas ajudaram este ser a pensar!?! Quanto a Educação Física o mimimi da vez é que vivemos uma epidemia de obesidade infantil e que eliminar a obrigatoriedade dessa matéria levaria ao aumento do número de obesos no futuro. Pura balela! A obesidade infanto-juvenil só vem crescendo e esses 10 anos em que a disciplina é obrigatória em nada conseguiu reverter ou ao menos estancar esse quadro não será agora.

As demais disciplinas serão facultativas – Química, Biologia, Física, História e Geografia – sendo optadas por quem quer ingressar em áreas que demandem maior conhecimento delas; usando do exemplo anterior do aluno que queria cursar Direito ele optará por História e Geografia; um aluno que queira cursar Medicina optará por Química e Biologia e daí por diante; e nada impedirá que um aluno que queira ser médico, como no último exemplo, e também goste de história opte por adicionar a cadeira de história a sua grade curricular ou mesmo que adicione mais outra disciplina ou mesmo todas se assim o quiser.

Quanto ao Espanhol, como teremos o Inglês como língua estrangeira obrigatória, a língua hispânica ficará como facultativa, mas terá a preferência em ser adotada como 2ª idioma caso o aluno queira mais uma língua estrangeira; não obstante ele poderá adotar o francês, alemão, mandarim ou outra caso o colégio em que estude tenha tais opções.

É preciso lembrar que ao invés de diminuir conteúdo nós estaremos sim é expandindo ele. Como? Ora sobrará mais tempo para acrescentarmos outras disciplinas opcionais como Astronomia, Noções de Economia, Xadrez, Programação, Robótica, Antropologia, Direito Constitucional entre outras que poderão enriquecer e muito o aprendizado do jovem, além é claro de mantê-lo estudando e interessado por mais tempo.

Então “entulharíamos” o ensino novamente só que ao invés das matérias já conhecidas acrescentaríamos novas disciplinas é isso!? Claro que não! Primeiro que tirando as três obrigatórias e mais duas ou três que teriam que ser facultativas, mas cursadas pelo aluno, todas as demais seriam opcionais. E mais gradualmente a ideia é que todo o Ensino Médio migre para o ensino integral em que ao invés das 04 horas diárias de estudo em um dos três turnos o aluno ficasse 07 horas por dia na escola.

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Outro ponto fundamental desta reforma é sobre o Ensino Técnico/Profissionalizante. Apesar de atualmente já ser possível a integração do Ensino Médio com o Ensino Técnico/Profissionalizante ele ocorre em pouquíssimas instituições como os Institutos Federais (antigos CEFETs), mas sem grande alcance e/ou repercussão; além do fato de ter que estudar 13 disciplinas obrigatoriamente e mais as disciplinas técnicas desestimula qualquer ser humano. A nova reforma vem para corrigir esse currículo aberrante a que o aluno que optava por essa modalidade, ao invés de prestar ENEM, passava.

Outro ponto de debate foi a formação dos professores com esta reforma, antes exigia-se que os docentes tivessem diploma técnico ou superior em áreas pedagógica ou afim; com a reforma acrescenta-se a titulação de “profissionais de notório saber” no corpo docente das instituições de ensino. Na prática não é abrir a porteira para que qualquer um vire professor é sim dar a oportunidade de quem possui conhecimento prático vir a ensinar mesmo que este não tenha um “diploma” de tal conhecimento. Um exemplo é o ensino de Xadrez por exemplo que envolve muitos cálculos matemáticos, mas que um bom enxadrista não precisa ser titulado em matemática para ensinar tal disciplina.

Algumas dúvidas pueris surgiram com o anuncio da reforma curricular do Ensino Médio como:

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Bem se você terá menos matérias obrigatórias para estudar e todas que sobraram serão fundamentais não só para você ingressar na universidade, mas para você compreender o que lá será ensinado, ora minha jovem, você só tem a ganhar! O ENEM claro será remodelado e ao invés de ser um exame único ganhará especificidade de acordo com o curso pretendido e claro com as matérias frequentadas pelo aluno no seu 2º grau moldado pelo próprio.

O site das Organizações Globo – o G1 – organizou um excelente “Antes e Depois” da Reforma que resume tudo que já foi falado aqui e eu o reproduzo abaixo:

Foto: Arte em g1.com.br
Foto: Arte em g1.com.br

Em suma o que estamos vendo é um medo irracional a uma proposta que longe de ser perfeita, mas vem pra dar uma sacudida na atual estrutura paquidérmica que se encontra o Ensino Médio. Se a atual proposta de reforma agrada uns e desagrada a outros é notoriamente sabido que do jeito que está TODOS estão em desagrado! Então meus amigos façamos um esforço de boa fé e vamos discutir, mas discutir com seriedade e embasamento algo que pode vir a ser o pontapé inicial para uma mudança mais profunda na tão precária educação de nosso país.