A Revolta de Atlas

A Revolta de Atlas

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A REVOLTA DE ATLAS
Ayn Rand – 1957

Um romance ou um triller de suspense? Um livro sobre economia e política ou uma simples ficção? Ficção científica? Realismo fantástico? Uma obra gigantesca (mais de 1200 páginas), mas que é lida com facilidade, pois prende o leitor logo no primeiro capítulo, sem nenhum linguajar técnico ou maçante. Essas são as inúmeras descrições que essa obra de Ayn Rand pode receber. Considerado o segundo livro mais influente dos EUA, perdendo somente para a Bíblia, esse livro é um curso completo de empreendedorismo e dos riscos da intervenção estatal na economia e nos negócios.

Há tempos que eu vinha lamentando a falta de livros de ficção que ajudem o leitor a desenvolver um pensamento capitalista, a favor do livre mercado, do empreendedorismo, das liberdades individuais. Existem inúmeros livros de ficção que fazem apologia ao socialismo de forma clara ou velada. Até livros infantis e infanto-juvenis existem com esta temática. Porém, do lado da Direita, temos pouca coisa nesse sentido. Geralmente, nos afundamos em livros cheios de termos técnicos, áridos, compreensíveis somente a poucos.

Quando soube da existência de “A Revolta de Atlas”, fiquei curioso em conhecer essa obra. Confesso que a extensão do livro, a princípio, me assustou. Porém, bastaram algumas páginas para que o temor se desfizesse. Apesar da autora ser uma filosofa, a qualidade de seu texto está justamente em não passar uma impressão de livro técnico ou panfletário. Algumas pessoas reclamam do excesso de descrições presente no texto. Isso particularmente não me incomoda, pelo contrário me atrai. Porém creio que a descrição detalhada do ambiente se torna necessária em “A Revolta de Atlas” por não estarmos diante de uma América real, porém hipotética. A descrição da decadência das cidades é importante para que o leitor se situe numa época fictícia onde a maioria dos países do mundo se tornou socialista e onde os Estados Unidos, único resquício de desenvolvimento no mundo, vive dias de crise econômica devastadora, provocada por medidas populistas, socializantes e restritivas da liberdade econômica, com desemprego altíssimo e negócios fechando todos os dias.

Em meio a esse cenário caótico, uma série de acontecimentos misteriosos irá pouco a pouco se insinuar na trama. Praticamente todas as pessoas competentes no país, seja de que área for, começam a abandonar suas atividades, se aposentar ou simplesmente desaparecer. O que aconteceu com elas?

Ao longo do enredo o leitor tem contato com personagens raros em qualquer sociedade, capazes de esforços sobre humanos para empreender. Paralelamente, conhecemos aos poucos praticamente todo tipo de parasita da sociedade: o filósofo amoral e invejoso, o artista sem talento, o jornalista inescrupuloso, o burocrata incompetente, o empresário incapaz, o político desonesto, o cientista que mistura ciência com sua ideologia, etc. O combate que surge entre esses dois grupos é algo que nos pareceria profético na década de 50, mas extremamente atual nos dias de hoje.

Rand é extremamente feliz ao mostrar como decisões governamentais ou de grupos corporativistas, mesmo disfarçadas de preocupação social ou justiça social, não só levam a mais problemas sociais, como muitas vezes escondem objetivos sinistros. Quem lesse esse livro há 60 anos talvez considerasse um exagero da autora a ideia de que a União poderia perseguir e taxar o estado mais desenvolvido da Federação a fim de auxiliar os estados que não tiveram a mesma competência, mas dependendo de qual estado você more, talvez saiba que isso não é teoria no Brasil.

Praticamente todos nós, mesmo os direitistas, fomos criados sob a visão marxista de que os empregados são explorados por seus patrões. Rand nos faz questionar a justiça dessa visão. Quem é o verdadeiro explorador e o verdadeiro explorado? Sabendo que somente uma pequena parcela da população é capaz ou está disposta a investir, arriscar e se dedicar na criação de um produto e na formação de uma empresa, quem explora quem? O empregado, que encontra a empresa pronta e se desliga dela assim que bate seu cartão de ponto ou o empreendedor, que nunca tem sossego, mesmo nos períodos bons dos negócios? O inventor do motor a explosão permitiu, com seu invento, milhões de empregos diretos e indiretos de pessoas que, por sua vez, seriam incapazes de inventar o mesmo motor. O mundo precisa de ambos os tipos de pessoas, mas a sociedade moderna, sob as ideias de Marx, parece ver o primeiro como um homem ganancioso, explorando o segundo tipo de pessoa.

Ayn Rand é de uma didática exemplar. Vai mostrando, ao longo do enredo, como medidas aparentemente bem intencionadas podem ser desastrosas no final das contas, quando não se leva em consideração as leis de mercado. E não só isso. Ela mostra como certas ideias se infiltram numa sociedade, despertando o pior das pessoas e privilegiando as pessoas mais inescrupulosas.

Rand expõe nesse livro suas ideias em três níveis: econômico, político e filosófico. Embora eu não tenha nada a questionar em relação aos dois primeiros níveis, no terceiro confesso que não compartilho integralmente das ideias da autora. O nível econômico defende o capitalismo, mostrando como ele é mais justo que o socialismo. No nível político, a defesa dos direitos individuais contra a tendência coletivista é perfeita. Porém, Rand era atéia e atribuía muitos dos problemas da sociedade à religião, particularmente o Cristianismo. O conceito de auto-sacrifício para ela era absurdo. Acredito que ela errou ao generalizar isso, não fazendo diferenciação entre o auto-sacrifício voluntário, praticado por grandes nomes ao longo da História e o auto-sacrifício imposto por outras pessoas ou pela sociedade, ao exigir que alguém se responsabilize por outro, prática cada dia mais frequente em nossa sociedade, que insiste em colocar a vida dos outros nas nossas costas.

Também não posso concordar com a oposição que ela faz a qualquer forma de caridade. Embora uma caridade mal direcionada possa realmente acostumar a pessoa que se beneficie dela, não podemos negar que existem casos onde a situação de desvantagem do indivíduo só pode ser revertida com auxílio externo. Creio inclusive que quanto mais praticarmos a caridade com pessoas necessitadas menos o Estado poderá usar essas pessoas como desculpa para arrancar dinheiro por meio de impostos e taxas.

img_2566Mas isso não invalida o livro, uma vez que a exposição das ideias filosóficas de Rand, embora na estória estejam intimamente ligadas às ideias políticas e econômicas, na prática são independentes. É possível, a meu ver, acreditar em Deus e, ao mesmo tempo, não ver mal algum em prosperar, obter lucro e defender o indivíduo. Os EUA cresceram com ambas as ideias concomitantes, só começando a se render ao coletivismo por imposição do Partido Democrata nas últimas décadas.

Esse livro é uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que se considere de Direita e para qualquer pessoa que queira conhecer os argumentos contra o coletivismo. Aliás, para os professores do Ensino Médio que estiverem lendo, fica uma sugestão: distribuam o segundo capítulo do primeiro volume a seus alunos para que leiam e debatam. Creio que isso poderia ser uma vacina contra a doutrinação marxista que vem ocorrendo.