A privataria da PornoBras

A privataria da PornoBras

253
Compartilhar

Num país imaginário, numa época imaginária, havia uma empresa estatal: a PornoBras. Havia sido criada há cerca de 30 anos por pressão de alguns parlamentares de esquerda, que reclamavam que a população de baixa renda era excluída do acesso à pornografia, o que caracterizava um elitismo. Para sanar esse problema, foi criada uma empresa cuja função seria produzir e distribuir pornografia a baixo custo aos cidadãos que tivessem interesse. Pressões contrárias por parte da igreja católica, evangélicos e setores conservadores foram acusadas de discriminatórias e tentativas de intervenção religiosa na liberdade do Estado laico.

A empresa teria o objetivo de produzir revistas e filmes pornôs, além de ser responsável pelo gerenciamento de uma rede nacional de sex shops e prostíbulos.

Após 30 anos, a PornoBras nunca realmente conseguiu cumprir seus objetivos. Com uma folha de pagamento com 3 mil funcionários, que ia da área administrativa até psicólogos e pedagogos, passando por diretores de arte, gerência de saúde, etc. o custo do material produzido era alto e a qualidade deixava muito a desejar, visto que muitas das prostitutas contratadas era mães de políticos, já bastante velhas para atrair o interesse do público. A empresa ainda estava às voltas com processos por gravidez indesejada por rompimento de camisinhas produzidas por ela. Um caso de uma mulher eletrocutada por um defeito de um vibrador abalara ainda mais a reputação da PornoBras.

No final das contas, a empresa longe de dar lucros, dava prejuízo ao Estado. Porém seus defensores afirmavam que isso era um preço a pagar pela democratização da pornografia e que nada mais justo que os cidadãos pagassem, com seus impostos, pelo seu direito ao prazer. Todos os meses a empresa tinha um déficit de 5 milhões de reais, coberto pelo Governo. Os altos salários e as baixas vendas levavam a essa situação.

Foi quando chegou à Presidência desse país hipotético um sociólogo, Fernando César Cheirozo. Como o país estava com uma inflação imensa, Cheirozo começou a analisar os custos desnecessários e encontrou diversas empresas estatais, dentre elas a PornoBras dando um prejuízo de 60 milhões por ano. Decidiu, então, privatizá-la.

Foi anunciado um edital de privatização. O valor estimado por especialistas para a empresa era de 50 milhões de reais. Um grupo chinês ofereceu 70 milhões e levou o contrato. Não faltaram protestos, tanto por parte dos funcionários, quanto de parte dos políticos e da mídia. O slogan “A PornoBras é nossa!” ficou entre os trend topics por algumas semanas, mas o Governo foi irredutível.

Após algumas semanas, os chineses fizeram uma limpeza na folha de pagamento. As mães dos políticos, as prostitutas virgens, os atores pornôs impotentes, todos foram demitidos, com seus direitos pagos. Mas o corte mais profundo foi na estrutura administrativa, onde existiam três gerentes para cada subalterno. Setores não relacionados à produção pornográfica, foram terceirizados. Ao fim de um ano, de 3 mil funcionários, a empresa caiu para 500. O sistema de franquia para sex shops e prostíbulos retirou da empresa os custos trabalhistas.

Cerca de dois anos após a privatização, a PornoBras já dava um lucro mensal de 20 milhões de reais, com distribuição de pornografia não só para o Brasil, como Argentina, Paraguai, Bolívia e Colômbia. Desse lucro, o Governo obtinha uma boa fatia em impostos, graças à nova alíquota sobre pornografia proposta por deputados de esquerda. O valor da empresa saltou para 200 milhões de reais.

A essa altura, o presidente Cheirozo já havia sido substituído por Luís Ostra, um populista. No meio do mandato de Ostra, estourou um escândalo, chamado rapidamente de “semanão”, pois os políticos comprados com dinheiro público para apoiar Ostra recebiam seu dinheiro toda semana. A opinião pública estava toda de olho nos altos valores desviados dos cofres públicos e era necessário que uma cortina de fumaça escondesse aquilo tudo.

Foi então que um jornalista obscuro, sem nenhum conhecimento de economia e administração, lançou um livro onde ele provava que o governo de Cheirozo havia lesado muito mais o país do que Ostra. Para que o termo “semanão” fosse ofuscado, ele inventou um novo termo: privataria. Dizia que o processo de privatização de empresas como a PornoBras era uma fraude calculada para entregar empresas importantes nas mãos de estrangeiros.

Para isso, ele usava um cálculo simples: se a empresa hoje vale 200 milhões e foi vendida por 70, o governo havia lesado os cofres públicos em 130 milhões. Ele nem colocava na equação o fato da empresa dar prejuízo (portanto não pagava impostos, os consumia) e agora estar pagando por mês quase o mesmo que custava aos cofres públicos quando era estatal. Curiosamente, os valores “perdidos” pelo governo na privatização de diversas empresas, somavam um valor muitas vezes maior do que o desviado pelo “semanão”. Muita gente honesta acreditou nesse livro e saiu dizendo que, pior do que o “semanão” era a “privataria”…

Pode parecer piada tudo isso que você leu, mas essa é a história do livro “A Privataria Tucana”, escrita pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. e lançado em 2011.

O livro foi “coincidentemente” lançado em meio ao escândalo do mensalão do PT, quando o governo viu que o uso da expressão “mensalão tucano” para designar uma operação infinitamente menor e restrita a Minas Gerais, não só não serviu para desviar a atenção, como o termo “mensalão” sempre remetia ao esquema original. Era necessário criar um novo termo e criar valores extremamente altos somente relacionados à administração tucana.

O livro de já foi refutado por jornalistas e economistas, como Merval Pereira, Miriam Leitão e Rodrigo Constantino. Uma estatal deficitária é um peso para todos os cidadãos. Se ela for entregue de graça à iniciativa privada já será lucro. Que dirá vendida, saneada e passando a pagar impostos?

2012.01.25 - Porto Alegre/RS - Entrevista coletiva com o autor do livro A Privataria Tucana Amaury Ribeiro Jr. Foto: Ramiro Furquim/Sul21.com.br
2012.01.25 – Porto Alegre/RS – Entrevista coletiva com o autor do livro A Privataria Tucana Amaury Ribeiro Jr. Foto: Ramiro Furquim/Sul21.com.br

Amaury participou da campanha de Dilma, portanto está longe se ser isento. Segundo Merval Pereira, “o livro, portanto, continua sendo parte da sua atividade como propagandista da campanha petista e, evidentemente, tem pouca credibilidade na origem.”

O livro alcançou bastante sucesso graças à imensa divulgação feita pelos blogs de esquerda (que, na época, não se sabia que eram financiados pelo próprio governo petista) que reforçavam que ele estaria cheio de documentos. Na verdade, muitos dos “documentos” eram extremamente suspeitos. Não passam de cópias xerox registradas em cartório. Que desonesto registra suas desonestidades em cartório?

Não é de se espantar descobrir que Amaury Ribeiro Jr. foi indiciado pela Polícia Federal por quatro crimes: violação de sigilo fiscal, corrupção ativa, uso de documentos falsos e oferta de vantagem a testemunha, tendo participado, como membro da equipe de campanha da candidata do PT, de atos contra o adversário tucano.

imageA PF concluiu que o jornalista pagou para obter informações sigilosas de pessoas ligadas ao PSDB. Ele fazia parte do chamado “núcleo de inteligência” da pré-campanha de Dilma Rousseff (PT). E admitiu, em depoimento, ter elaborado um dossiê contra Serra. Só por esse crime, de encomendar quebra de sigilo, poderá pegar até 12 anos de prisão.

Em resumo, a tal “privataria” não passou de uma estratégia de marketing extremamente bem elaborada e viralizada por blogueiros sujos, pagos com dinheiro público para fazer o que o PT manda. O PSDB pode ter mil defeitos. FHC pode ter ainda mais defeitos, por ser defensor de aborto e maconha, mas privatizar empresas públicas não está entre seus pecados.